Falhas incorrigíveis

Foto | Sayaka Minemura
Foto | Sayaka Minemura

 

 

Cheia de imperfeições, a vida é manca. Com a literatura não é diferente. Os escritores tentam dar o melhor de si, muito esforço e tutano à procura do ritmo perfeito, da palavra exata, da fluência bem dosada, mas a falha, a imperfeição está sempre no encalço. Há quem se angustie com isso, caso de Fausto, que tem insônias com o assunto, dobrado sobre o papel, na tentativa de destilar ideias da cachola, como se houvesse nesse ato insensato algum sentido a se obter. Mas da vida, é preciso que se diga, vem também o aprendizado do convívio com a imperfeição, de onde se retira o tempero da beleza. Sabe, a simetria é enfadonha. Claudia, a vizinha, plena consciência do fato, cantarola despreocupações vida afora, sozinha ou em dueto com o rádio, enquanto dedica as curvas à felicidade e aos temperos da comida que prepara com o mesmo gosto que põe em todas as áreas que a satisfazem, sobretudo essas que te ocorreram quando você leu a frase. Voraz e animada, voluptuosa, Claudia sabe que é de barulhos que o mundo se lembra, então faz questão de ampliar os próprios para ser lembrada. Fausto e Claudia atropelam suas intempéries no elevador, avaliam personalidades nesse espaço social de confinamento temporário e cheio de sugestões ao constrangimento. Mas não para Claudia, que sorri para Fausto como se sorrisse para o amante. Ele se desconserta, tímido e cauteloso, ela não liga, a vida não espera, é manca, mas Claudia não é e não perde tempo com hesitações ou com quem se perde nelas. Ao sair, tem pressa porque é feliz, joga um tchau melodioso e sugestivo e se ele tivesse erguido a cabeça teria visto que ela chegou mesmo a lançar uma piscadela provocadora. Fausto rumina, antecipa os momentos em que tentará captar, inútil e repetidamente sobre papel (suas amarras), a vida que escapa pelo elevador, a passos largos porta afora, para viver com intensidade, antes que tudo se evapore porque esse é o destino inexorável.

 

6 comentários sobre “Falhas incorrigíveis

  1. Uau! Muito bom!!! Percebo que estamos (pretensos escritores, ou de fato) numa espécie de reflexão em massa sobre o ofício hahahaha Brincadeirinha. É que somos muitas vozes nos últimos textos que li. Incluindo um de 1895, de Aluízio Azevedo. Mmm…. espera!….rs
    Até!

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