Desacertos de sempre

peixe

 

 

Ali vinha ele, João Cara de Sabão, João Malandrinho (imitação ridícula do sujeito mais ridículo de todos os tempos, o prenome com diminutivo, Serginho), a limpar o nariz que escorria na manga da camisa, sem pudor, à espera de acertar pelo menos dessa vez —- pelo menos uma vez, porra. A calça ia escorrendo e se alguém viesse por trás teria o desprazer de lhe conferir a porta do cofrinho. João suava, aquele calor dos diabos, ninguém merece, Satanás resolveu transferir a matriz do Inferno para o centro da cidade, não bastava o governo instalado ali. João puxou as calças para cima em paralelo à cintura, mas ao soltar elas voltaram a deslizar, aguçando o desconforto. O bigodinho propositalmente de malandro antigo, malandro de fotonovela dos anos 1970, homenagem, uma lembrança de um galã do cinema num pôster da memória, João era sentimental, fazer o quê? “Tô gripado pra caralho, desce uma”, vociferou, imitação do macho irritado com propósito imbecil de provocar risada e amaciar o fiado futuro, a mão espalmada e um tapão no tampo de madeira do velho balcão de Douglas, o dono da espelunca. O pai de Douglas gostava de filmes americanos, sonhava uma carreira cinematográfica para si mesmo, que sabia impossível cumprir, e se não, pelo menos para o filho, que nascia com nome de ator das gringas para facilitar o processo e cresceu para virar dono de boteco e para aguentar malandros donos de conversas fiadas, feito João. Muito tempo que Douglas não ia ao cinema, para falar a verdade. “O que tem pra hoje?”, estava perguntando João, enquanto Douglas lhe servia a pinga na única coisa que tinha de americano naquele lugar (salvo o nome do dono), ou seja, os copos. “O que tem pra hoje é que essa é a última cachaça que você leva fiado, depois disso só abro outra linha de crédito pra você quando zerar o que me deve”, Douglas disse. Tinha acordado com a pá virada, uma dorzinha que subia pela lateral das costelas. “Que mau humor da moléstia é esse, Dodô?”, João provocou, o meio sorrisinho de perfeito cretino que ele tinha treinado por anos até o domínio completo. O segredo é não duvidar. De nada. Nunca. “Cansei de ser passado pra trás, vou dar um basta nessa folga geral e é pra hoje”, Douglas esbravejou. Acresce que detestava o apelido. “Também tenho conta pra pagar, caralho. Sou lá governo pra ficar financiando vagabundo? De agora em diante, só leva quem paga. Nada de pendura, nem pro papa. Essa aqui pra você é a despedida.” Não que Francisco pretendesse frequentar o boteco de Douglas. Mas estava prevenido, não teria refresco. Caridade é lá pros outros, o negócio de Douglas precisava faturar o mínimo para manter tudo em funcionamento, água, luz, zilhões de impostos. De um gole, João das Couves virou a cachaça, depois sacou a faca que ninguém sabe como se equilibrava naquela calça bêbada e a enterrou na dor de Douglas, justo na lateral das costelas, o calor se espalhando ainda mais, o Diabo devia estar bem satisfeito. Ainda houve outras tantas, o serviço precisava ser bem feito. Na delegacia, depois, iam perguntar se ele trabalhava para alguém, se tinha sido encomenda. Mas que nada, só o calor, o anúncio do fim do fiado. Ainda teve tempo de beber um bocado, antes da chegada do camburão. Fez direitinho, diriam depois, dentro do presídio, ele orgulhoso de agora frequentar a universidade do crime de que sempre tinha ouvido falar.

 

6 comentários sobre “Desacertos de sempre

  1. MarciaTondello 21/05/2014 / 23:57

    Muito bom!!!
    Até pra se especializar em bandido tem que ter curso preparatório. Por isso que ganham verba de bolsa bandido. Dá trabalho entrar :-O
    Governo financiando vagabundo??? Que desaforo!! Só que não… “Vagabundo” que fica escrevendo e tenta registrar seus “trabalhos” a tempo de participar dos concursos em fase final não consegue, pois o povo da cultura tá “de greve”, ninguém consegue entrar na Biblioteca Nacional 😦 Trabalhos de vagabundo. Na mesma frase. Desaforo, ou ironia? 😉
    Inté!

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    • paulopaniago 22/05/2014 / 10:59

      Ambos, desaforo e ironia. Aliás, ambos nada, a ironia é sempre um tipo de desaforo, certo? Boa sorte com o registro.

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