Atendi o telefone

charuto

 

 

As pessoas querem saber do andamento do curso, elas estão atrasadas, a vida atrasou-se, tudo é tarde, não estamos mais interessados no seu interesse, eu tinha vontade de dizer, mas não podia, eu fazia barulhos ao telefone, fingindo que ria, que era divertido, que sim, estávamos interessados, mas a verdade é que não, nunca estivemos, e estamos além disso cagando para atrasos e atrasados, no dia, na vida, no que for. Por que diabos eu lia aqueles livros, pensava, clássicos e tudo, cheios de ideias a respeito do mundo, teorias megalomaníacas, ou mesmo geniais, sacadas, sugestões, ângulos bacanas, por que eu insistia em adorar Moby Dick e Bartleby, eu era especialista em Herman Melville, tinha estudado a vida do cara e a obra, conhecia de trás para frente e vice-versa, e no entanto estava ali, atendendo ligações, derretendo ao calor da tarde, a televisão ligada ao fundo, minha avó insistia, deixasse a televisão ligada, ela queria ver o jogo do Brasil, eu estava cagando para a seleção, mas eu era o único, eu e o outro idiota que naquele momento tinha me ligado e queria saber a respeito do curso e estava atrasado, as aulas tinham começado há uma semana. Por que diabos eu tinha resolvido dar um curso a respeito de literatura norte-americana do século dezenove, com ênfase em Melville, todos os livros, atenção especial à leitura de Billy Budd, essas coisas, zero de interesse e relevância social, queremos saber é quantos gols fará a seleção no próximo jogo. Na sala existiam seis alunos, cada um mais destrambelhado que o outro, aquele curso estava fadado ao naufrágio, era o Pequod da literatura, arpão e raiva contra a imensidão incontrolável da baleia e dos atrasos. Chupei os dentes, minha vó gritou gol, o bairro inteiro gritou gol, aquele gol longo, goooooool, secundando o locutor alucinado na televisão, duzentos milhões de gritos simultâneos. O que eu estava fazendo ali? Minha vó sentada na cadeira de ratã, o calor derretendo o fio do telefone, minha mão virando água, a literatura americana, o curso, o aluguel também atrasado, a vida. Sim, eu disse sim, venha, não tem importância você estar atrasado, você pode recuperar o tempo perdido, acrescentei uma piada sobre Proust, ele obviamente não entendeu, nem riu, tudo bem, vida que segue, não se pode ganhar todas. Houve uma pausa e então um cachorro uivou gooool ao longe. Eu ri, ele estava atrasado também, minha vó xingou o juiz. O calor ia nos matar a todos.

 

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