O crítico 1.1

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Quando conheci Marta ela era viúva. Tinha perdido o marido para um acidente de carro, me disseram. Eles se conheceram quando ambos eram estudantes universitários e depois de um namoro tranquilo e estável o casamento foi a decisão natural a que chegaram, para acontecer assim que a formatura lhes entregasse diploma, emprego e futuro. Uma história de amor tão banal que talvez nem devesse ser mencionada, porque segue o padrão repetitivo que se estampa nas pessoas que puderam frequentar universidade a ponto de eu pensar que alguém devia estabelecer a correlação entre o número de casamentos e o de formaturas.

É o pré-requisito de como agir de acordo com o Manual para Pessoas Comuns no período imediatamente posterior ao recebimento do diploma, o início de pós-graduação antes da pós-graduação propriamente. O casamento de Marta e Álvaro não durou o suficiente para lhes permitir tempo de gerar herdeiros. O acidente se antecipou, surpreendeu Marta sem marido, sem filhos e sem futuro, pelo menos até que superasse o luto e se decidisse a ter filhos por métodos artificiais ou com outro homem, uma vez que a esperança só seria recuperada em parte e sempre com a pitada de contenção de quem desconfia das armações ardilosas do destino, depois de rasteira tão baixa. É na questão dos filhos que eu entro.

Eu poderia falar a respeito de perda, de valor, o peso que tudo isso adquire, essas coisas, mas não agora. Não estou querendo desmerecer os sentimentos de ninguém, nem de Marta, de quem gostei muito, nem de quem porventura ler isso aqui e que provavelmente sofreu perdas (devo usar o plural?) e sabe o quanto elas são importantes, até porque eu mesmo tive as minhas parcelas nem sempre suaves de sofrimento nesta vida. Não se trata disso. É que se eu for falar de perda justo agora que pretendo contar como foi que Marta e eu nos conhecemos, a história vai dar uma guinada antes mesmo do começo e passa a ganhar um tom triste, sombrio, com cadência muito lenta, porque sempre que se fala em tristeza é preciso falar com lentidão, um valor que prezo muito, por sinal, ou correr o risco de parecer leviano, caso a tristeza seja descartada com um simples estalar de dedos, como se não tivesse tanta importância assim. É preferível deixar a tristeza em suspenso, por enquanto, e será bem melhor concentrar na aproximação que fizemos, Marta e eu.

 

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