O crítico 1.2

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Fomos apresentados por amigos comuns durante uma festa e percebi que aquela mulher morena e de olhos tristes carregava uma expressão inconsolável, embora contida, quase como se houvesse abraçado o inevitável e encontrasse conforto nele. Entretanto algo me dizia que ela gostava de manter em torno de si a aura de melancolia que lhe dava a viuvez, aquela nuvem escura e carregada sempre a flutuar sobre a cabeça, porque era como se estivesse mergulhada numa caverna em breu e depois, ao sair de lá em direção à luz, trouxesse algo do escuro absoluto consigo como uma marca de distinção. Marta não era igual as mulheres que se mostram um tanto ansiosas para parecerem felizes. Ela era uma jovem viúva de vinte e nove anos, que perdeu o marido há três, ainda terminando de processar um luto demorado, o sorriso no modo econômico por questões de pudor ou usura. O marido tinha sido advogado e eu não podia fazer piada com o fato de que o universo devia estar contente por existir um pilantra a menos no mundo.

Devo dizer que me agradou profundamente o desenho que subia a partir dos ombros de Marta. Ela tinha um conjunto de musculatura proeminente que se projetava a partir do ombro em direção ao pescoço e que parecia se harmonizar de maneira estranhamente pertinente com o formato quadrado e fino do rosto. Dava a impressão de ter saído da pintura de algum modernista, sem as distorções de praxe. Às vezes, olhar o desenho das linhas me dava a impressão de que ela nunca relaxava, era uma mulher sempre em tensão. A ideia é razoável se você considerar que é o preço cobrado pela elegância ou o resultado de uma parte importante da vida dedicada às aulas de balé. Aquela parte que define as linhas do corpo e registra uma marca permanente. Marta tinha sido desenhada para resistir às intempéries, tempestades e furacões fariam com que ela aparecesse fortificada do outro lado, depois de atravessar e resistir a tudo. A têmpera do sofrimento foi o título hipotético que me ocorreu quando fui apresentado a ela, mas depois não sabia no quê empregá-lo e, por fim, me pareceu pomposo demais. Era talvez o título da tela de onde ela havia fugido — a fuga da arte para a vida real, uma escolha que pessoalmente eu jamais teria feito. Retrato de bailarina dobrada sobre a sapatilha. Ela amarra a fita no tornozelo com cuidado e delicadeza, faz uma aposta lá na frente, sabe o que precisa sacrificar agora.

É terrível estar casada com alguém, fazer planos com essa pessoa, projetar um futuro com ela, planejar as estratégias para se alcançar esse futuro e depois, do nada, num dia de sol ou de chuva qualquer, ter tudo lançado pelo ralo e saber que essa pessoa não estará mais, nunca mais, ao seu lado. O choque que a informação da morte súbita provoca em alguém é algo muito difícil de assimilar, embora o corpo e a mente humanos sejam muito resistentes e sempre encontrem novos meios de se renovar. O choque da morte do outro é uma ameaça incontornável de que você também irá morrer um dia. Consigo imaginar passando pela cabeça de Marta a ideia de morrer naquele exato momento e interromper as compotas abertas do sofrimento que a morte de alguém tão próximo provoca, o vazio amplo, cheio de escuridão, oferta de antecipação exclusiva. Consigo imaginar hipoteticamente, porque a emoção que ela sentiu ninguém que não tenha vivido situação semelhante será capaz de compreender com exatidão.

Disse que o corpo e a mente humanos se renovam, encontram os meios para renovação, mas às vezes me pergunto se o que de fato acontece não é outra coisa. Aprende-se a se conformar, aprende-se uma espécie de resignação diante daquelas forças das circunstâncias que estão acima de sua capacidade de administrar o poder da natureza e do destino. Resignar-se, conformar-se, há um tipo de humildade em jogo na adoção dessas características, é como se o ser humano abrisse mão de ser tão ambicioso e despudorado, é como se dissesse que não quer toda a aventura do mundo, antes prefere a contenção. A morte de alguém tão próximo dá essa medida de contenção. Certas religiões são baseadas em educar as pessoas para esse tipo de resignação persistente que te prepara para a vida. Embora o que as religiões querem, mesmo, no fundo, é ser o substituto mais eficaz para a filosofia, ou seja, querem ensinar a morrer.

 

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