O crítico 1.3

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Nossa aproximação se deu aos poucos e de forma muito lenta. Eu me interessei quase instantaneamente por aquela mulher com uma aura sombria. Estou certo de que uma parte de mim prefere as sombras à luz, elas são mais fascinantes e cheias de nuances do que o brilho direto. Sou atraído por esse modelo problemático, na mesma proporção que fujo da superficialidade das mulheres excessivamente esfuziantes, embora tenha para mim que as mulheres felizes demais estão disfarçando temores, inseguranças e pequenas doses de infelicidades, mas no meu entender escolheram a pior estratégia para demonstrar isso. Me agrada pensar que preciso compreender a presença forte e maciça da morte em cada movimento que faço em direção à vida, isso reforça o frescor com que devo encarar o poder de movimentação que está atrelado ao sentido de estar vivo. Talvez por isso eu tenha feito muito alpinismo nos meus anos de juventude: gostava da ideia de estar desafiando a gravidade e de correr riscos, além de olhar com certa sensação de vertigem para baixo, quando você está no fim da escalada. Sempre se pode cair, sempre se pode deixar o corpo despencar lá de cima, rumo ao abismo. Quem não tem coragem de fazer alpinismo jamais saberá o que é essa sedução das alturas. Passará a vida ao rés do chão, em fingida segurança, até que um tigre saia de trás da moita e dê um bote sobre o infeliz, para lhe estraçalhar a vida e os medos num só ataque.

Uma mulher que tem familiaridade com o sofrimento é sempre mais interessante. Se você observa, por exemplo, um grupo de jovens mulheres reunidas, mulheres que ainda não tiveram tempo de viver certa cota de sofrimento, que ainda tateiam para compreender as regras da vida adulta, clube para o qual só recentemente foram aceitas como sócias, o que você notará imediatamente é a carga de frivolidade, o excesso de risadinhas e o alarido meio boboca que elas não conseguirão evitar. Mulheres com maturidade funcionam em outra dinâmica, embora quase sempre não consigam resistir a dois minutos de certos ruídos necessários, como se fosse parte da etiqueta do convívio feminino desde tempos imemoriais e um mínimo de reverência ao passado se fizesse necessária.

Há uma frivolidade, um clima boçal no riso fácil que não me comove nem me atrai e que me causa um enorme problema por ser brasileiro, por viver entre pessoas que para tudo fazem logo uma piada, dão um jeito de rir e de tratar o mundo de uma forma que eu não tenho problemas em qualificar como leviana. Meu interesse por Marta se manifestou no jeito como ela conversava de modo pausado, como se tivesse refletido com calma a respeito de cada palavra antes de começar a dizer as opiniões que tinha e só começasse a falar quando tivesse certeza de que não iria voltar atrás. Era um tipo muito próprio de sobriedade, misturada com uma aura circunspecta, uma contenção de gestos e palavras a que eu não estava acostumado e me vi quase instantaneamente atraído por aquele jeito que ela tinha de se expressar. Não havia hesitação nas palavras, ela abria a boca e o discurso estava pronto, ele tinha propósito e se dirigia para o objetivo com clareza tão evidente que parecia suave.

No entanto e embora não a conhecesse ainda, ela transparecia ter cicatrizes mal curadas nas emoções naquele momento, como se o acidente acontecido com o marido houvesse sido um tipo de retaliação do destino direcionado a ela e eu deduzi logo que não queria ser responsável por um novo trauma em sua vida. Embora também parecesse ter mantido uma reserva de bom humor, o que era um mecanismo de aposta na continuidade da vida. Eu estava com dificuldade de localizá-la com exatidão. Cautela e caldo de galinha, diz o ditado, você sabe o resto. Óbvio que não acredito em ditados, minha carreira de crítico literário se estabeleceu no sentido de demolir todos os lugares-comuns, ditados, manter combates incansáveis embora exaustivos à redundância e à opinião estabelecida. Precisei adquirir conhecimentos e uma dose elevada de pedantismo de que tenho dificuldade para me livrar, para ser sincero nem sei mesmo se me esforço, acho que me agrada essa postura e visto com naturalidade a capa protetora da arrogância. Portanto, nada de caldos de galinha para mim, por favor. E cautela é escudo dos covardes. Para conquistar uma mulher como Marta era preciso ousadia e uma dose muito grande de determinação. Tirar as camadas uma a uma, que ela ia lançando como obstáculos. A sedução de uma mulher é conduzir o sujeito pelo labirinto de modo a deixar que pense que foi dele a iniciativa, enquanto ela finge estar sendo seduzida. São as regras sutis da contradança dos relacionamentos e tem quem finja não saber que é assim.

 

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