O crítico 1.4

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

— Desde que meu marido morreu tenho achado cada vez mais que não é preciso repô-lo com outro, como se fosse um eletrodoméstico que quebra e em vez de mandar arrumar você vai até as Casas Bahia e compra um novo — ela disse, naquela noite em que fomos apresentados.

Foi isso o que me agradou. Em meio ao sofrimento e em resposta às tentativas dos amigos de empurrá-la de volta à vida, que nem poderiam ser desmerecidas porque afinal estavam tentando ajudá-la, Marta era capaz de fazer comentários entre sarcásticos e sardônicos (confesso minha dificuldade para distinguir entre ambos, embora tenha estudado o assunto, como crítico literário que se preze), rindo de si e da própria condição. O riso é um dos maiores desafios para a morte. Se eu soubesse rir na cara da morte, tenho certeza de que ela ficaria completamente sem ação: eu a paralisaria num canto do ringue e abriria um sorriso antes de despachá-la para a lona com um cruzado que na minha imaginação é sempre mais potente. É do desespero e do medo humanos que a morte se alimenta e se fortalece.

Isabel, nossa anfitriã, havia dito que mais cedo ou mais tarde Marta iria voltar a se abrir para a vida e encontraria outro marido. Foi o que Isabel deixou deslizar pela nossa conversa quando ligou dois dias antes para fazer o convite e explicou o que pretendia com o jantar. Ela estava sussurrando no bocal para me convencer, naquele espírito de conspiradora que acreditava ter sido herdado de algum inconfidente que garantia ter como antepassado. Ela supunha desempenhar a versão humana e pedestre do cupido, ou era o que imaginava ser o papel que lhe cabia naquela farsa. Seríamos três casais, ela explicou. Ela e Eduardo, o marido, eu conseguia ver Isabel erguendo os dedos enquanto falava comigo, para ajudar na contabilidade, Giovana e Plínio, amigos de longa data, e, o melhor guardado para o fim da lista, eu, Roberto, divorciado recente, e Marta, viúva nem tão recente, mas nova na cidade e precisando conhecer pessoas. Nós seríamos os avariados que precisam de reparos, Isabel disparou, ela também uma língua afiada considerável, depois de me contar que Marta era mais uma estatística das vítimas de trânsito. Ou melhor, uma vítima indireta, porque o marido era quem de fato tinha colaborado para as estatísticas. A intenção nada disfarçada de Isabel era nos aproximar, porque supunha que tínhamos algum tipo de afinidade em potencial que merecia ser explorada. Não aceitaria não como resposta, insistiu, e me mandou dar um tempo de livros e leituras, porque estava precisando e ia me fazer bem, de acordo com seu diagnóstico telefônico. Contrariando minha disposição natural para me rebelar contra qualquer ordem que queiram me infligir engoli a isca e a minha vontade de dar uma resposta malcriada. O que me fez, mais tarde, ficar especialmente feliz com a resposta fornecida por Marta quando o assunto da viuvez foi trazido à mesa na intenção de que deixasse logo de ser um elefante na sala.

Falar a respeito de marido como eletrodoméstico era mostrar um lado de provocadora disposta a contestar a noção de que precisava arrumar outro, mesmo que Marta não soubesse o teor da minha conversa telefônica com Isabel (ou será que sabia?), mas ao mesmo tempo dava a dimensão do modo como parecia levar a sério a decisão que compartilhou de não arrumar novo marido. Ou pelo menos esse era o recado que ela pretendia exteriorizar para todos em volta da mesa, aquela noite. Quando as pessoas estão se conhecendo, é natural que façam declarações que representam as fronteiras, que situem o que a pessoa é ou pretende ser, o que ela permite ou aceita, o que ela recusa, a respeito do quê tem preconceitos. É parte do jogo social, definir o papel que cada um desempenha na peça da vida. A ideia é fazer com que soe natural nas conversas esse tipo de declaração e ajuda a criar os marcos com que aquelas pessoas começarão a ser tratadas umas pelas outras daí por diante. Claro que, à medida que há convivência, o contrato vai sendo modificado em novos termos e as letras miúdas começam a aparecer. Uma coisa é como você quer ser visto, como se esforça para se apresentar. Outra, diferente, como você de fato é, quase sempre bem menos interessante do que a imagem que procurou vender. Quando Marta se abrisse de novo para a vida, como queria Isabel, eu estaria lá para recebê-la e para usufruir dessa abertura e se você está percebendo um certo tom de ironia na minha escolha de palavras, saiba que é sempre intencional. Desculpe chamar a atenção para a metáfora, mas como crítico às vezes não sei resistir a fazer certas indicações de maneira muito explícita das ferramentas que costumo usar no meu cotidiano.

 

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