O crítico 1.5

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Estávamos reunidos em torno da mesa de carvalho do casal Moreira para desfrutar um risoto de carne seca com abóbora muitíssimo bem temperado e, para acompanhar, vinhos que meus amigos de classe média julgam ser chique servir aos convidados. Na verdade, para desfrutar sobretudo das companhias uns dos outros, porque o instinto gregário do ser humano é o mecanismo para se proteger contra tigres escondidos em arbustos. Meu paladar não é sofisticado como acredito que minhas ideias sejam, eu teria preferido cerveja e a verdade é que vinho não reage muito bem com meu organismo. Eu não criticava meus anfitriões por esse comportamento, estavam cumprindo os papéis que acreditavam serem os mais adequados. Como assinalei antes, é difícil escapar do lugar-comum e Eduardo e Isabel gostam de cumprir os protocolos da civilidade. De minha parte, demonstrei civilização ao não recusar o vinho que me foi servido. Embora Eduardo estivesse ciente das minhas preferências, manifestas desde que frequentamos a universidade na mesma época e nos tornamos amigos. Mas ele deve ter imaginado que eu iria passar por cima das minhas preferências para acatar o vinho servido, como prova de meu comprometimento com a causa das alianças bem intencionadas. Além disso, ele havia me dado uma cerveja quando cheguei a seu apartamento mais cedo. Era como se tivesse proposto uma troca tácita, eu aceitava a oferta da cerveja como entrada e em retorno não reclamava do vinho quando fosse servido junto com a refeição principal. Eles acham que há certa harmonia nisso e sentem-se felizes quando as coisas dão certo ao fim da noite. Uma coisa é preciso conceder a eles, em público pareciam harmoniosos e bem resolvidos. Eu ficava pensando em como seria quando estivessem sozinhos, se viria à tona outro lado, como provavelmente todo casal deve ter, o dia de lua minguante.

Marta iria assumir nos próximos dias um cargo na administração federal, depois de ser aprovada num concurso público. Deixava a cidade natal, Belo Horizonte, onde o provincianismo e os círculos familiares se estreitam de forma contundente, para tentar vida nova nessa cidade inóspita que é Brasília, cumprindo a tradição de passar em concurso público, algo que a capital esmerou-se em produzir numa escala inimaginável em qualquer país sério. A cultura de concurso é tão veemente que as pessoas sequer conseguem imaginar qualquer variante para os próprios destinos e, além do grande volume de pessoas que se dedica a estudar para conseguir ser aprovado num concurso, a cidade começou a atrair levas de gente que vem de outras cidades para prestar algumas das provas, que existem com regularidade irritante aos domingos. Em Brasília, o concurso é o equivalente da missa. Isso não deixa de ser lastimável, mas suponho que não seja muito diferente em qualquer capital administrativa do planeta. Em torno do poder, acumula-se uma sucessão de ambiciosos verdadeiros e gente que supõe ser, até se dar conta de que não está efetivamente preparada para enfrentar o que é preciso. A ambição cobra um preço muito alto que nem todos estão dispostos a pagar. Carne fresca, caso de Marta, é estudada com expectativas, até que demonstre as verdadeiras inclinações.

Então é isso. Existe uma dinâmica para conversas durante o jantar na casa dos amigos e todos sabem como essas coisas funcionam, como os assuntos estão dispostos feito petiscos numa bandeja entre os convidados e são espetados um a um para que a bola continue a rolar, o próximo assunto substitua o anterior e a discussão prossiga como um transatlântico pela noite, calma e vagarosamente. Os seis conversaram a respeito do trânsito, cada vez mais terrível na capital, o aumento da criminalidade, a rodada do brasileirão (os homens), uma promoção de bolsas e sandálias numa grande loja de departamentos (as mulheres), o governador e as decisões idiotas de sempre (todos novamente), a migração africana em navios clandestinos para a Europa e a sucessão de naufrágios que parecia bastante suspeita. Ninguém falou de fisioterapia, profissão de Isabel, ou de arquitetura, para agradar Eduardo. Nenhuma palavra sobre literatura ou pedagogia, porque além de crítico sou professor universitário. Mas falou-se — isso parece inevitável — em emprego público, em esfera pública (felizmente sem se mencionar Habermas), em concurso público. Se você mora em Brasília, não teve como se livrar desses assuntos e certamente se viu engajado em alguma conversa a respeito do assunto, goste ou não.

Minha tarefa passou a ser retirar Marta de qualquer exposição indevida à podridão em torno do poder num país periférico em que a disputa é carniceira. A mulher havia sofrido o bastante ao perder o marido, não precisava cair sem rede nos círculos de disputa desenfreada da capital, onde seria presa fácil. Claro que cheguei a me imaginar como um cavaleiro andante montado num cavalo branco e garboso, como se dizia à época desse tipo de literatura, mas a fantasia durou dez segundos. A real era que queria aquela mulher do meu lado, para amá-la e porque existe em seres humanos, mesmo nos esquisitos como eu, a necessidade de procriação. Marta daria uma excelente mãe para os meus filhos, avaliação que não foi conturbada pelo poder alcoólico das uvas, mas confirmada nos próximos encontros que tivemos. Por isso fiz de tudo para me casar com ela, sem perceber o tamanho do equívoco que seria aquele gesto.

 

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