O crítico 1.6

VM6

 

 

Percebi que finalmente algo havia se modificado nos próximos encontros quando ela começou a fazer brincadeiras. Você está proibido de morrer, Marta me disse, como se estivesse zangada por antecipação comigo, por causa da possibilidade de desrespeitar a regra que ela tinha acabado de inventar. Está certo, concordei, e sorri. Prometo não morrer nem tão cedo. E beijei-a na ponta do nariz, como se quisesse selar a promessa. Mas a recíproca é verdadeira, você também não pode, acrescentei. Não era exatamente uma jura de amor convencional o que estávamos fazendo, mas eu sabia que para ela era importante ter garantias daquilo que a vida se encarregaria mais cedo ou mais tarde de desmanchar. O que eu podia fazer, jogar-lhe a verdade absurda na cara? Claro que prometi não morrer. Uma promessa que se estivesse ao meu alcance realizar, desarmando a bomba-relógio implacável que todo mundo carrega no peito e que ao mesmo tempo que garante a vida anuncia o que falta para a morte, nunca me recusaria.

Às vezes eu achava que tinha me casado também com o fantasma de Álvaro, o primeiro marido de Marta. Me sentia o personagem do romance de Jorge Amado, o marido idiota e comportado de Dona Flor. Flagrava Marta sentada na rede da varanda com o olhar perdido no horizonte e ficava com ciúmes do fantasma, que devia estar ali lhe fazendo companhia. Se pudesse, abriria um processo no além contra ele, aquele advogado de merda. Ao mesmo tempo, por Marta continuar casada com Álvaro, tinha vontade de processá-la por bigamia.

— Está tudo bem, meu bem? — perguntava, enquanto engolia minhas preocupações e entrava de supetão na varanda, procurando com radar na direção para a qual ela apontava os olhos, à espera de também ver o fantasma.

— Claro — ela mentia, um sorriso nada convincente —, estou só descansando um pouco aqui fora.

O fantasma provavelmente partira ao antecipar minha presença. Eu não tinha olhos para fantasmas da vida real, só conseguia identificar bem aqueles que existiam nos romances.

Hum, eu fazia, sem que ela percebesse minha desconfiança e me deitava também na rede, para garantir que o fantasma do marido morto não quisesse ter ideias e confiscar o território da varanda para si. Eu era dono da mulher, da varanda e da rede, era o meu recado intempestivo para ele. Mas sabia que Marta não era minha, talvez não fosse nem mesmo de Álvaro. Uma parte dela tinha morrido com ele no acidente, isso era certo. Uma parte dela queria estar comigo. Marta era uma mulher dividida entre dois mundos e dois amores, um deles fazendo um esforço danado para engajá-la de volta na vida. O outro era uma sombra de sedução, uma fumaça do passado, cujo apelo eu não podia controlar. Aquela sensação de segurança que ela havia me apresentado quando nos conhecemos era agora uma rachadura que começava a dividi-la em duas Martas, com desejos paradoxais se manifestando de maneira cada vez mais intensa.

 

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