O crítico 1.7

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Fiquei pensando em fantasmas, que são uma memória do passado que a gente insiste em projetar no presente. É isso o fantasma, o eco eternamente reverberante que vem lá de trás. Mas então inverti a perspectiva e comecei a pensar nos fantasmas do futuro. Porque toda vez que eu começava a imaginar que ia ser esfaqueado, que alguém me assaltava e me dava um tiro, que Marta ia sofrer um acidente e não voltaria para casa, que o médico de minha mãe ou do meu pai ia me chamar para me contar a respeito do câncer que descobriu no raio-X, eu estava criando um fantasma lá na frente que também tinha o poder de interferir no presente. Achava que Álvaro, tão ou mais ciumento do que eu, daria um jeito de arrebatar Marta de mim. Ou talvez fosse ele me soprando aquelas ideias sombrias. Estávamos num duelo entre dois mundos. Não vivi o suficiente com ela, ele me explicava em pensamento, para justificar o fato de que a envolveu num acidente de carro. Você está maluco?, eu dizia de volta nesse diálogo hipotético que nunca consegui deixar de colocar em prática. E por acaso eu vivi o suficiente ao lado dela, cara? Quem pensa em mim?, eu reclamava para ele, quase choramingando. O fato é que meu argumento soava patético, mesmo para mim que começava a me arrepender do que havia dito assim que as palavras saíam da minha boca. Não conseguia ver o fantasma de Álvaro, mas ouvia muito bem o que ele tinha para me dizer e argumentava de volta.

Claro que Marta também me exasperava enormemente às vezes. Eu procurava atraí-la para a vida, para o movimento da vida, para os barulhos, mas a resistência dela, os dias negros em que ela mal conseguia se levantar da cama começaram a se multiplicar.

— Eu quero te ajudar — eu dizia. — Mas para isso eu preciso que você também se ajude e me ajude a te ajudar.

E com essa montoeira de frases imbecis mandei para o saco minha disposição de não dar corda para lugares-comuns, abracei sem pudor o conjunto de frases idiotas de que todo mundo lança mão em momentos de crise e motivado pelo que entende que seja o amor. As crises funcionam à perfeição para o emprego de todo tipo de chavões, é quando se respeita a verdadeira natureza interior, aquela que fala com as palavras dos antepassados, para repeti-las exaustivamente. Você precisa lançar mão das suas referências nos momentos de crise e as minhas eram os meus antepassados, com suas palavras de consolo e conforto para os dias de chuva, com os caldos de galinha e as cautelas. Mas o fato de enxergar que minha autonomia sempre foi muito relativa não me impede de ter lançado mão do recurso no momento necessário. Isso não me redime nem me desculpa, apenas estou contando como a história se deu.

Marta virava para o outro lado, na cama, o corpo parecendo menor, quebradiço. Dobrada sobre si mesma, as mãos entre as pernas, sintoma clássico de depressão.

Decidi que precisava de uma abordagem mais incisiva.

— Não posso lutar contra um fantasma, Marta. Nem você devia. Porque a gente não marca a consulta?

 

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