O crítico 1.8

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Havíamos conversado a respeito de ela procurar ajuda especializada. Alguém que lhe receitasse pílulas. A medicina contra a fantasmagoria, num cinema perto de você. Ela mal se virou na cama, mas a cabeça fez um certo movimento, como se quisesse enxergar uma rachadura no teto. Uma consulta silenciosa a Álvaro, para ver o que ele achava daquela proposta.

— Você é muito injusto — ela conseguiu pronunciar.

Eu sabia que ela estava falando a respeito de Álvaro, estava me acusando de ser injusto com um morto, porque ele estava morto e não podia se defender sozinho, ali na rachadura do teto. É a vantagem dos vivos, eu tinha vontade de poder responder a ela. Podemos falar bem ou mal dos mortos, o que for mais conveniente de acordo com a ocasião. Acontece que a nossa não era uma briga de palavras, mas de silêncios. Eu me lembrava do conselho que havia lido num dos aforismos de Nietzsche e depois se tornou um desses lugares-comuns que as pessoas repetem por aí como se fosse sabedoria universal retirada de tempos imemoriais, sem fonte reconhecível. Seu casamento deve ser feito com alguém com quem você goste de conversar, porque a certa altura é só o que vocês terão em comum, aconselha o alemão, embora também faça críticas contundentes ao casamento em si mesmo, se bem me recordo. Dizer que a conversa é algo que vai sobrar num casamento também é uma crítica, imagino. De todo modo, o importante aqui é que, segundo Nietzsche, meu casamento estava tudo menos indo de vento em popa, com os silêncios ocupando todos os recintos e minando o futuro em comum.

Se Marta tivesse perdido o marido depois de trinta, quarenta, sessenta anos de vida em comum, teria sido outra coisa. Quando você passa a vida ao lado de alguém e tem bastante tempo para encher o saco do convívio com essa pessoa, mas depois se acostuma de novo, sente falta daquela cara-metade como se a sua existência de fato só fizesse sentido ao lado da pessoa, bem, isso é diferente. A outra coisa que aconteceu, um acidente de trânsito que matou Álvaro, isso é brutal, é uma espécie de trapaça insuportável. Consigo pensar em Marta se sentindo traída. Álvaro tinha prometido que passaria a vida ao lado dela. Claro, alguma coisa sempre poderia aparecer no meio do caminho e separá-los. Mas não era esse o plano. O plano era o envelhecimento conjunto, filhos em conjunto, acúmulo de perdas e ganhos e dinheiro na poupança em conjunto. Férias na praia. Férias no exterior. Aparelhos de dente para os filhos. Visita aos filhos quando estivessem no intercâmbio em outro país. A tralha toda, o sonho médio da classe média, as realizações modestas e sacrificadas, mas possíveis. Marta não era uma pessoa religiosa, mas consigo vê-la também se ajoelhando na igreja e comungando, corpo de Cristo, canções enfadonhas, ave, ave, ave, Maria. Marta tinha fingido durante muito tempo, apenas para agradar a família, para não gerar discussões intermináveis na hora do almoço, para não virar uma ovelha negra ou receber os olhares de reprovação. Ela queria ser assimilada e compreendida e talvez servir de exemplo para os sobrinhos. Marta, mãe modelo, tia modelo, filha modelo. Um doce, Marta, um amor de pessoa, era o que ela gostaria que as pessoas dissessem quando se referissem a ela. Mas algo deu errado, Marta desagradou alguém nos altos escalões, nas altas esferas, e como castigo por ter sido cínica com a própria família e desonesta com as crenças próprias e alheias, Deus iria lhe tirar o marido. Aquele era um Deus punitivo, um Deus velha guarda, Antigo Testamento, voz de montanha e impiedade maciça. Agora Marta era honesta consigo mesma e com a família e não frequentava mais igrejas e nem por isso tinha virado uma pária. Certo, a família levava em consideração o valor da tragédia pessoal para fazer a equação fechar direito. Marta perdeu o marido, deixem-na em paz, quando for o momento certo ela voltará a se aproximar da fé, a mãe sobretudo acreditava nisso. No momento ela precisa de espaço e ser deixada em paz para processar a dor.

 

2 comentários sobre “O crítico 1.8

  1. Mirian Oliveira 26/08/2014 / 18:25

    nietzsche e deus juntos, numa tacada só, é delicioso. estou me divertindo muito com esse crítico. por mim, ele entraria mais vezes, diariamente, em meu computador. grata, paulo, por escrever tão bem. um abraço.

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    • paulopaniago 26/08/2014 / 22:23

      Obrigado, Mirian. Muita gentileza de sua parte dizer isso. Fico feliz de saber que a novela está te agradando. Ela vai ficar um bom tempo sendo publicada, até que chegue ao fim. No computador a história tem cinquenta páginas, dividida em quatro partes. Ou seja…

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