O crítico 1.9

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Eu tinha dito antes que a morte de Álvaro é um tipo de traição, uma trapaça, mas pensei melhor e concluí que permanecer vivo é que é uma traição temporária da condição definitiva que é estar morto. O vivo atrapalha o estado de quietude do morto. Talvez por isso existam os fantasmas, eles são lembretes da nossa condição ruidosa e quando nos assustam, ficamos em geral mudos, portanto em silêncio. Pode até haver gritos num primeiro momento, mas depois o pasmo gera silêncio e é isso o que o fantasma deseja.

A minha leitura era inteiramente outra, no que diz respeito às forças do além. Pensei em dizer para Marta algo mais ou menos na linha do que acreditava. O destino te pregou uma peça só para provar que não te favorece com uma vida equilibrada o tempo todo. O destino, que na verdade se chama Acaso e não respeita leis nem princípios, escolhe suas vítimas de maneira completamente aleatória, em que pese a probabilidade apontar caminhos. No dia em que Álvaro morreu, Marta poderia ter morrido no lugar dele, ou junto com ele, ou apenas no mesmo dia mas de causas inteiramente distintas. A morte de ambos poderia se dar quando os filhos tivessem nascido e fossem pequenos, porque pequenos órfãos é ainda mais pungente. O acaso joga dados o tempo todo. Os que ficam vivos deviam se dar por contentes, mas é melhor não fazer muito alarde, não chamar muita atenção. Você está comemorando e no momento seguinte tem um enfarte, um AVC, está fermentando um câncer lento nas células do fígado ou do estômago que será descoberto quando for tarde demais para reverter. Os dados, se você pensar bem, Marta, foram favoráveis a você até agora, você chegou aos vinte e nove, possivelmente viverá para ver os trinta, se tiver sorte dobrará ou triplicará esse número. Mas eu não podia dizer isso a ela. A verdade sobre o acaso é que ele é bem mais generoso do que punitivo, a verdade é que ele é tão indiferente quanto um cálculo de probabilidade: se for o seu dia, será o seu dia. Vários ganhadores de milhões da loteria morreram num breve período depois do anúncio do prêmio. É esse desafio permanente dos números dos dados do acaso que é tão fascinante. A vida está sempre por um fio.

Marta iria ser minha terceira esposa. Quando você vai aprender?, Eduardo me disse, na ocasião em que lhe comuniquei que ia me casar com Marta e que ele e Isabel seriam padrinhos. Quando você vai aprender a ficar num casamento até o fim?, ele insistiu. Dessa vez, eu garanti, é definitivo, aprendi minha lição, eu disse a ele e estava convencido. Mas o dia a dia reserva segredos, ninguém te adverte das minas que cada casamento vai espalhando pelo território do cotidiano e você simplesmente não tem como adivinhar de onde vem a próxima explosão. Até porque ela pode ser fantasmagórica, uma explosão contida em brancura de névoas, em nadas, em vazios, na loucura que o silêncio carrega em si, prestes a entrar em conflito com os ruídos do mundo e fazer o estrago contra o qual você não pode reagir, porque não sabe como é que se faz.

 

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