O crítico 1.10

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

O primeiro casamento foi o mais breve, durou seis meses e terminou de forma tão intempestiva que estou até hoje à procura de entender o que houve. Foi como se não tivesse existido. Eu estava perto de concluir o curso de letras, estava me formando e pensando se faria o mestrado ou se arrumava emprego. Clara era colega de Eduardo no curso de arquitetura, tinha pernas longas e pavio curto, numa festa nos aproximamos, o namoro engrenou, o andamento parecia natural, antes mesmo de concluir o curso estávamos morando juntos e por causa da pressão da família dela decidimos nos casar com todas as formalidades cumpridas, cartório, igreja, viagem de lua-de-mel. Seis meses de montanha-russa depois estávamos separados e Clara se mudou para o interior de São Paulo, onde duvido que tenha arrumado trabalho como arquiteta. Parece que voltou a se casar, alguém comentou comigo ou posso ter visto algo nas redes sociais. Não sei, perdemos contato de uma forma tal que é como se aqueles seis meses fizessem parte de um sonho, não da minha vida concreta.

Três anos mais tarde, quando eu estava com vinte e cinco anos e depois de passar um período de pegação descompromissada, me envolvi com Telma, morena, ponderada, sólida, aconchegante. Quando penso nos dois últimos adjetivos que uso para qualificá-la percebo que Telma foi mais minha mãe do que minha esposa. Me agradava em Telma o jeito tranquilo de enfrentar cada um dos problemas que aparecia como se fossem naturais, esperados e devessem ser tratados com a devida maturidade. Nada nela estava envolvido em desespero e angústia, nada nela denunciava tormenta, porque não havia. Com o tempo, as qualidades se transformaram em defeitos e percebi que Telma na verdade não tinha disposição para muita coisa, era relativamente frígida na cama, o que se torna frustrante e, sobretudo, ameaçador, porque me pegava fazendo perguntas que não deveria: o problema é comigo? O que eu fiz para que ela esteja assim? Mas em mim um fogo continuava a arder intempestivamente, de modo que o problema era Telma, pacífica, bovina, um desespero.

Cheguei a imaginar que Telma estivesse morta e não sabia, tal o nível de calma com que ela enfrentava toda e qualquer questão. Foi pavoroso e nem quando anunciei o fim do casamento ela pareceu ressuscitar. Pensar que levei sete anos mergulhado nessa poção do sono eterno. Quando relembro de Telma hoje em dia, não consigo deixar de formular mentalmente um descanse em paz, embora ela continue morta em vida. Então, ao fim do processo eu tinha dito a Eduardo e a Plínio que me escutavam na ocasião e tentavam me consolar, eu tinha dito que nunca mais pretendia me casar, tinha aprendido minha lição e sabia que o casamento é para quem tem certo preparo, o que definitivamente não era o meu caso. De volta à pegação, ao descompromisso, às noites de álcool e aos dias de falta de memória. Teve um lado muito bom. Enquanto estive casado com Telma fiz mestrado e doutorado, de uma vez, emendados um no outro, me concentrei em adquirir formação. Comecei a pensar na teoria da literatura com cada vez mais força, essa disciplina com zero de interesse para o comum dos mortais, mas excelente para distrair certos caras de suas esposas distraídas.

 

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