O crítico 1.11

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

De modo que ao receber o convite de Isabel e Eduardo para conhecer Marta, pensei que estava sendo apresentado a mais uma dessas mulheres com quem você sai uma ou duas vezes, transa e depois inventa uma desculpa cretina para não ligar novamente. Talvez Isabel tivesse advertido Marta para essa possibilidade, porque me conhecia e sabia da minha fama de cafajeste, da qual eu não me orgulhava particularmente, mas também não chegava a sentir vergonha. As coisas são como são, eu justificava e achava que isso era o bastante. O que entendia de teoria da literatura não se aplicava, nem remotamente, à vida. Eram duas instâncias bem separadas, com fronteiras rígidas e beligerantes. Marta botou abaixo, não sei se intencionalmente, todos os meus princípios e minhas crenças, de modo que me vi na situação de chamar Eduardo e Isabel para padrinhos e ter que dizer ao meu amigo que aprendi a lição e com Marta ficaria casado para sempre, envelheceria ao lado dela, como meu pai e minha mãe estavam fazendo, embora eu desconfiasse que eles mais se suportavam do que se entendiam.

Meu contato com meus pais estava reduzido ao mínimo, essa que é a verdade. Éramos uma família disfuncional, eu morava na mesma cidade que eles e quase não os via. Glória, minha irmã, tinha se casado e morava no interior de Goiás com um engenheiro civil num relacionamento que me escapava de compreender e ela ligava para nossos pais com uma frequência assustadora, como se precisasse manter aquele vínculo, alimentá-lo, não importa a distância. Minha mãe me jogava isso na cara toda vez que eu me dignava a passar pelo apartamento deles, no fim da Asa Sul. Sua irmã ligou ontem e hoje, ela dizia, na verdade a semana toda. É?, eu dizia de volta, transbordando de desinteresse. E está tudo bem com ela? A pergunta era retórica, eu também falava bastante com Glória, não precisava ser informado pela minha mãe de como ela estava. A pergunta era apenas para adiar um pouco a essência da conversa: a falta de atenção que eu, filho mais velho, dispendia para ambos, aposentados e ativos, cheios de amigos e uma disposição de viver que lhes garantia fácil um adicional de mais uns duzentos anos sobre a face da terra. Embora eu estivesse ali aquele dia, presente em carne e osso, e Glória a quinhentos quilômetros de distância, apenas uma voz pelo telefone, todo dia, a falar sobre sentimentos e receitas de bolo, manutenção pura e simples de uma conversa que ultrapassava minhas tentativas de compreender o que havia entre mãe e filha. O curioso é que meus pais eram carinhosos e atentos, não me negligenciaram nem houve, entre nós, qualquer tipo de ruptura séria. Eles não brigaram comigo quando disse que queria estudar letras, não se decepcionaram nem pareciam preocupados, nada de cobranças indevidas, pressões, nada de crises extremas. Eu simplesmente me afastei, a iniciativa foi minha, admito. Achei que dessa forma eles se voltariam para Glória e tentariam ajudá-la porque ela, sim, precisava ajuda. Aqueles telefonemas todos talvez fossem parte desse processo. O que estaria acontecendo naquele casamento de Glória com Arnaldo eu não gostava nem de pensar. Tinha vontade de ir até a cidade onde moravam e quebrar o nariz do sujeito, um machista empedernido. O que Glória estava tentando resolver na própria vida ao escolher um cara com um perfil daqueles era para mim a grande incógnita que nem anos de terapia resolveriam, me parece.

 

deixe um comentário ou um desaforo

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s