O crítico 1.12

Foto | Vivian Maier
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Eu estava aprendendo alguma coisa ao querer me casar com Marta. Para Eduardo, eu disse que o aprendizado era a longevidade do casamento. Era minha intenção, eu gostava da ideia de harmonia e solidez que é levantar-se pela manhã ao lado de uma pessoa que é sua melhor amiga para o que der e vier. Uma pessoa que à noite se torna desejável e gostosa e você pretende se fundir a ela para se tornarem um só corpo e alma. Claro que, com o tempo, o sexo deixa de ser preponderante e daí todo o restante é o que sobra e aquilo no que você deve se concentrar, o suporte, a amizade, a harmonia e o café da manhã conjunto, alguém para trocar dois dedos de prosa e resolver quem vai ao banco pagar a conta de luz, alguém para dividir a tarefa de levar os filhos ao colégio e comprar remédio para febre durante a noite. Nós seríamos a realização da premissa de Nietzsche, sem a parte da crítica ao casamento. Eu estava com trinta e dois anos e ainda tinha esperanças de que a vida daria guinadas, havia espaço para guinadas, havia tempo para fazer as coisas darem certo. No meu caso e do ponto de vista profissional, eu queira angariar reconhecimento público entre meus pares (críticos têm uma situação ainda mais complicada do que escritores nesse quesito) por uma teoria que estava concluindo e pretendia publicar. Minha teoria reavaliava o poder dos arquétipos na literatura, se possível de uma maneira mais drástica do que o que havia feito o crítico canadense Northrop Frye em Anatomia da crítica. Ele era considerado uma das maiores autoridades do ramo no século vinte, era a ele a quem eu deveria dar combate, segundo as ideias de um outro crítico importante, Harold Bloom, que escreveu uma série de ensaios para defender que a influência gera uma angústia que deve ser superada com parricídio simbólico. Em outras palavras, eu seria o filho rebelde que matou Northrop Frye para erguer minha própria voz com autonomia. Acresce que eu fazia isso de um país periférico, o que aumenta gigantescamente o tamanho da luta que devia ser travada. Para cada Octavio Paz, para cada Ricardo Piglia que consegue ser reconhecido no exterior pela seriedade da crítica que pratica há uma quantidade enorme de gente que falha acintosamente. Do ponto de vista dos caras do primeiro mundo, Octavio Paz e Ricardo Piglia são parte da cota que se permite importar de inteligência estrangeira de quando em quando e os latino-americanos ainda precisam lutar também contra outros candidatos de continentes diferentes para se candidatarem ao papel de crítico relevante. A preferência é sempre para os escritores, os García Márquez e os Vargas Llosa, os Carlos Fuentes e os Jorge Luis Borges (dificilmente, pelas minhas contas, um brasileiro). Mas a vida é luta, há pesos pesados e há mestres em esquiva. Eu tinha planos e ambições.

Só não contava que teria também que enfrentar as forças do além numa etapa preliminar. Um dia, três meses depois do casamento, portanto antes de ser acometido da sensação de ter me transformado num eletrodoméstico na vida de Marta, estava na varanda com uma xícara de café nas mãos, logo cedo, prestes a ir para uma aula onde discutiria parricídios simbólicos e teorias arquetípicas. A manhã estava bastante fria e o sol parecia estar com uma enorme preguiça de dar as caras. Portanto a iluminação era precária, o que parece ser preferível para os fantasmas. Mas eu devo dizer que estranhei o fato de que era manhã, sempre acreditei que fantasmas sentem-se mais confortáveis à noite, porque fazem parte do momento em que os medos são mais palpáveis e podem vir à tona mais facilmente, ou seja, no escuro. Marta havia percebido que horários rígidos não fazem parte da rotina do serviço público federal e me disse que iria chegar mais tarde aquele dia, portanto ainda estava na cama. Eu contemplava os verdes da grama que se estendia vasta diante do meu prédio e a tonalidade era meio acinzentada, novamente, por causa da pouca luminosidade. O café estava forte e eu gostava exatamente disso, era minha dose matinal de forças concentradas em negrume. Ouro negro, eu dizia, toda vez que me referia ao café e ao seu poder de ressuscitação junto às almas fatigadas.

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