O crítico 1.13

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Algo se mexeu no canto da varanda e meu olhar foi atraído para lá. Era um canto mais escuro e divisei a forma de um ser humano transparente, tal como tinha visto em vários filmes de fantasmas ao longo da vida. Um arrepio me percorreu, sobretudo nos cabelos da nuca. E fiquei imóvel, o corpo virado para a frente, a cabeça voltada para o lado. Não conseguia mais me mexer, não sei se queria. Devia sair correndo? Ou devia enfrentar? Sou um sujeito ferozmente realista, jamais acreditei nessas bobagens e sei que o contrato que a literatura faz com os leitores é lúcido, baseado numa suspensão voluntária da descrença, como dizia Coleridge. Ou seja, o leitor escolhe acreditar naquilo que lê, por sua conta e risco. Se quiser não acreditar, tudo bem. Aliás, não deve acreditar, apenas confiar na coerência interna do argumento. É simples e elegante. E o leitor deve se divertir, se acredita que é possível. É disso que se trata. Portanto, jamais contei com o fato de que iria me deparar realmente com um fantasma, embora uma parte brincalhona da minha mente tenha, sim, desejado esse encontro com um fantasma, apenas para saber a que exatamente todos aqueles escritores ao longo de tantos séculos tinham se referido ao escrever a respeito de fantasmas, aparições, espectros, mas essa parte brincalhona estava na verdade bastante arrependida da provocação que havia ousado fazer.

Acho religiões grandes bobagens usadas para enganar as pessoas que necessitam acreditar no além, acho o trato da literatura mais transparente e honesto, desconfio dos filósofos que falam em alma. Portanto, fiquei pensando, com todas as letras, que havia enlouquecido, que estava no meio de uma alucinação visual, foi nisso que pensei. Teria que consultar um médico. Mas algo dentro de mim, uma curiosidade primitiva, me fez querer saber o que estava acontecendo ali. Ele era o marido morto da minha mulher. Eu conhecia as fotos, Marta tinha me mostrado. E quem mais estaria ali, morto? Se fosse um vivo, seria um ladrão. Simples. Como fazer literatura. Como tocar a vida. O Sol se põe e depois se levanta. Não é isso o que acontece de verdade no andamento dos planetas em torno do Sol, mas a gente diz isso e sabe a que essas palavras se referem, o que indicam, que fenômeno acontece todo começo de manhã e todo fim de tarde. O que a gente não sabe é como proceder quando se depara com um fantasma de alguém a quem você nunca foi apresentado.

— Álvaro? — perguntei, como se não soubesse. Ou para ter certeza. Ou para ele perceber que eu sabia o seu nome, o nome que ele tinha quando estava vivo. Minha voz saiu normal, segura, nítida, o que me surpreendeu um pouco. E como se fosse nada, a coisa mais corriqueira do mundo, acrescentei, dando a impressão de que oferecia uma xícara de café a uma visita matutina: — Posso te ajudar em alguma coisa?

Ele abriu a boca, os olhos não tinham brilho mas estavam ali. Era como aqueles defuntos que ganham vida nos filmes e saem dos caixões sabe-se lá por que forças absurdas, mas o rosto e o que se pode ver do corpo ainda está branco porque não há sangue em circulação. Ele abriu a boca e parecia estar dizendo alguma coisa, mas não saiu qualquer som.

 

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