O crítico 2.1

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

O crítico é esse sujeito que não consegue olhar para uma tela ou uma fotografia sem reparar ao mesmo tempo na moldura. Os nós atrás de cada bordado, sim, a parte de trás, o que tem lá?, mas também as laterais: espessura, altura, consistência. Um crítico é alguém que repara. Que observa os detalhes, que se atenta para o que está além das aparências. Um crítico literário é um especialista teórico em fantasmas, porque estudou literatura a vida toda e os fantasmas são os personagens que mais aparecem. Histórias de horror, histórias de terror, narrativas fantásticas, dramas, romances, o além sempre despertou a curiosidade da literatura, porque sempre fez parte das inquietações dos seres humanos. O que existe além da vida? O que sobra depois que o corpo se transforma numa carcaça e é rapidamente escondido debaixo da terra? Que experiência bizarra, se você estiver vivo e depois morto, tudo terá se encerrado em caráter definitivo e permanente. Mas mesmo se algo, a tal alma, for continuar, uma consciência em forma de nuvem, mesmo assim é bizarro e absurdo, porque nesse caso alguém devia realmente voltar para explicar aos vivos o que é que acontece do lado de lá. Logo, fantasmas. Ou a nossa projeção consistente de como eles deveriam ser e se comportar. Além disso, a voz que aparece no texto literário, a voz do narrador, é a voz empostada de um autor que existiu ou ainda existe, mas é uma voz de ventríloquo, uma voz de fantasma que se dirige ao leitor sempre num tempo futuro. Quando um escritor senta-se para começar um texto, ele pensa num leitor, o leitor ideal, que não passa de um fantasma. Ele até pode pensar num leitor verdadeiro, alguém que ele conheça. Pode escrever com essa pessoa em mente. Mas mentalizar a presença de alguém não é tê-la ali. Aliás, se o leitor estivesse junto com o escritor nos momentos em que ele se senta para escrever, o escritor iria provavelmente travar e não conseguiria qualquer avanço. É necessária a solidão para que a escrita possa avançar. E a solidão é propícia para o aparecimento de fantasmas. No texto, quando pronto, não fica mais do que um tipo de elaboração do escritor. Mas o fato é que ele não está ali, aqueles personagens jamais existiram, mesmo que tenham sido baseados em pessoas de verdade. Toda a história da literatura é uma história de fantasmas.

Pensei em fantasmas durante muito tempo, depois daquele encontro na varanda. Sinto um grande incômodo quando penso em como agi naquela situação. Como a voz de Álvaro não saía, e ele parecia perceber isso, o que lhe deu uma expressão de tristeza, eu simplesmente deixei-o ali na varanda e entrei, fechando a porta atrás de mim. Não me lembro exatamente do que houve em seguida, se afinal fui para a aula e a respeito do que conversei com os alunos ao longo dela. O plano era falar a respeito dos arquétipos na obra de Saul Bellow, mas não me recordo de nada. Incomoda muito pensar que deixei Marta dormindo sozinha em casa, com aquele fantasma ali na varanda. Porque mesmo que tenha fechado a porta de correr da varanda, não era isso, não era o vidro transparente da porta nem a cortina atrás do vidro que iria segurar um fantasma. Ele iria se materializar, ou pelo menos se tornar visível, no quarto, na hora que quisesse, foi o que meus conhecimentos fantasmáticos me disseram naquele momento. Então, como foi que eu saí de casa naquele dia e deixei Marta lá com Álvaro, com o fantasma do marido? E sobretudo fiquei pensando por que diabos Álvaro tinha ficado triste quando percebeu que não conseguia falar comigo. Será que acontecia a mesma coisa quando ele tentava falar com Marta? Fiquei pensando a respeito do que ele estava querendo me dizer. Lembro que deixei a xícara na cozinha, depois fui até o quarto e coloquei um casaco. Deitada de lado, os cabelos espalhados pelo travesseiro, Marta estava dormindo com a boca ligeiramente aberta. Eu estava em vantagem em relação ao cara na varanda. Estava vivo, e quando abria a boca as palavras saíam. Coloquei uma blusa de frio, parecia frio lá fora, ou foi a presença de Álvaro que trouxe aragens perturbadoras para a varanda, não importa, eu achei que era melhor sair de casaco e não sei se dei um beijo em Marta antes de sair. Devia acordá-la e contar o que houve? Melhor não. Ela iria se assustar, ou dizer que eu estava ficando louco depois de ouvir meu relato, e certamente não conseguiria mais voltar a dormir. Se bem que estava perto da hora de ela acordar. Mas sempre havia a hipótese de Marta dizer que também o via e passaríamos a ser sócios numa mesma fantasmagoria e acho que essa ideia me assustava mais do que manter o segredo. Fui até o banheiro novamente e olhei meu rosto no espelho. Tive a impressão de que o fantasma era eu. Estava branco. Decidi não acordar Marta. Talvez fosse o poder que os fantasmas têm de transformar as pessoas que os veem em uma representação de suas fantasmagorias, um ensaio geral antes que os vivos assumam as futuras condições fantasmáticas. Naquela noite, sonhei com uma grande festa, num daqueles salões franceses do século dezoito cheios de grandes vidros que deixam a luz da lua entrar enquanto os muitos candelabros cuidam da iluminação interna. No meu sonho, um grupo de mulheres com aquelas perucas brancas, pele empoada em excesso (a brancura da fantasmagoria), colares de pérolas no pescoço, leques nas mãos, vestidos rodados com armações sufocantes, atravessaram silenciosamente, entrando pela esquerda, saindo pela direita, por uma porta que abria para o jardim, e eu sabia no meu sonho que todas elas estavam mortas, eram todas fantasmas.

 

5 comentários sobre “O crítico 2.1

  1. marielfernandes 06/09/2014 / 18:54

    Bom, não sei como será a vida pós morte. Provavelmente estarei morto de sono depois disso. O resto é tudo fantasma.

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    • paulopaniago 07/09/2014 / 10:19

      Se for um grande sono, tudo bem para mim. O problema é se for uma grande insônia e os restaurantes não forem bons.

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      • paulopaniago 07/09/2014 / 20:59

        É a diferença. Eu sei que não vou para o céu (não há narrativas por lá, não me agradam as companhias e sobretudo a musiquinha de harpa). Que bom que você vai, boa sorte.

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      • marielfernandes 08/09/2014 / 10:18

        Não, não, não. Essa coisa de ir pro céu ou não deixamos para mais tarde. E se não há narrativas por lá, que porre.

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