O crítico 2.2

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

A consulta que eu queria marcar para Marta agora deveria também me incluir. Doutor, vejo fantasmas. Ou melhor, um fantasma, este, específico, um fantasma emprestado. O que o senhor tem para esse problema? Qual o remédio para alucinações? E qual a resposta para essa pergunta tão intrigante: se as pessoas geralmente veem fantasmas de quem elas conhecem, por que eu vejo o fantasma de alguém que nunca encontrei na minha vida? Essa era a pergunta certa, me parecia, e que transformava a minha história de fantasmas numa novidade, numa variante curiosa por conta desse traço distintivo. Uma coisa era certa: eu estava convencido de que se tratava de uma alucinação, embora meu corpo tenha reagido à presença de um estranho inóspito, uma ameaça. Minha mente me pregando peça e a sugestão da melancolia de Marta me empurrando na direção do marido morto, uma influência que eu faria por bem recusar conscientemente, mas o produto do inconsciente tem regras próprias e específicas, contra as quais eu não podia fazer muita coisa. Talvez um remédio para alucinações. Um remédio potente, doutor, tarja preta. Ah, sim, e um antidepressivo aqui para a minha mulher, por favor. Não, aquilo não daria certo.

Marta via um fantasma e não falava comigo a respeito. Eu via um fantasma e não conversava a respeito do assunto com Marta. Que belo casal, Marta Fernandes e Roberto Leme, econômicos nas confianças recíprocas, cheio de segredos mútuos e tensos. A verdade é que eu não podia falar do assunto com ninguém. Oi, Eduardo, eu imaginava a conversa, tudo bem? Olha só, está acontecendo uma coisa estranha lá em casa. Comecei a ver o fantasma de Álvaro, o marido morto de Marta. O que você acha? E ele ficaria de queixo caído, antes de mandar me internar. Camisa-de-força, remédios pesados, eletrochoque, ainda se usa esse método maluco para tratar os malucos? Com consentimento da minha família, do restante dos amigos, por favor assinem aqui, nessa linha. E lá ia Roberto, acompanhado por dois enfermeiros para evitar tentativas de fuga.

Não, eu não podia contar a ninguém que havia visto um fantasma, teria que levar comigo aquele segredo para o túmulo e sabia que o dia talvez estivesse perto, afinal eu estava vendo o que não devia. Sempre achei que as pessoas que enxergam fantasmas é porque estão com um pé entrando no outro lado, era uma espécie de aviso e preparação para o que te espera em breve. O que acontece na literatura a respeito de fantasmas é que todos os personagens são passíveis de encontrar com os fantasmas, não apenas aqueles que estão perto de morrer, aquilo era a minha paranoia pessoal. Portanto não existe dúvida quanto à presença do fantasma. Cria-se, do ponto de vista do narrador, algum suspense a respeito de quem será o próximo a ver e como se dará a próxima manifestação, como se fantasmas fossem cupins, e talvez, ainda, que procedimentos adotar para se livrar dos fantasmas. Ninguém parece ficar à vontade com os fantasmas, puxar papo e oferecer cafezinho. Não se pretende que sejam amigos e se sentem confortavelmente instalados no sofá da sala. Todos parecem ter muita pressa para se livrar dos fantasmas. Álvaro portanto deveria ser mantido em segredo, ninguém podia saber que eu tinha visto o seu fantasma, nem mesmo Marta. Era a minha sanidade que estava em jogo e o segredo era a garantia de que eu sabia mantê-la.

 

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