O crítico 2.4

Foto | Vivian Maier
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Para mim, um dos melhores fantasmas da literatura estava num livro de Philip Roth chamado O teatro de Sabbath. O protagonista, Mickey Sabbath, perde a amante, está velho, irritado com o modo como vem sendo tratado pelo mundo, pelo destino e também por si mesmo. É um personagem muito autodestrutivo, mas quase sempre consegue devolver parte de sua raiva para o mundo em volta. Enquanto tenta se equilibrar, Sabbath começa a conversar mentalmente com a mãe que morreu. São conversas imaginárias, dessas que todo mundo tem no dia a dia quando pensa que daí a pouco vai se encontrar com alguém e dirá isso e isso, e quando a pessoa responder, acrescentará aquilo e aquilo. Todo mundo tem esse tipo de conversa na mente, é um teste antecipado dos diálogos que se pretende travar, antes que a realidade se encarregue de mostrar que tudo vai transcorrer de maneira bem diferente do que foi imaginado. Aos sessenta e quatro anos, Sabbath “podia renunciar a tudo, menos a fazer contato com os vivos, e nem de longe queria saber de trocar ideias com os mortos”. No entanto, sua mãe está lá, conversando com ele, respondendo suas perguntas e fazendo as próprias. Sabbath começa assim, até que o tempo e a narrativa avançam e aos poucos ele vai de fato ouvindo a mãe a lhe dar conselhos, ou será que ainda é aquela voz interna, é o que o leitor sempre poderá desconfiar e o texto não faz a menor questão de esclarecer. A técnica é usada de maneira muito sugestiva e estimulante, sobretudo de maneira muito inteligente. Da primeira vez que li o romance, não havia me dado conta de que a grande percepção de Roth foi acompanhar tão de perto o processo de loucura do personagem que ao leitor só resta identificar exatamente onde ocorre a racionalidade envolvida em tudo. Claro, do ponto de vista do maluco, o mundo continua normal. Então vamos entrar na cabeça do maluco para ver de perto como funciona o mecanismo. O romancista tem essa liberdade e se for bom o resultado pode ser bem impressionante, como de fato acontece nesse livro.

Me ocorreu pensar que o que a literatura faz, falando tanto a respeito de fantasmas, é deixar claro que eles de fato existem, a despeito de a literatura ter um contrato de que o que se passa ali naquelas páginas é sempre ficção, portanto não se aplica à realidade. A questão é que os fantasmas devem ter existido no mundo real para que um dia fosse possível que migrassem para a literatura. As pessoas que dizem não acreditar em fantasmas mantêm mesmo assim a abertura para a possibilidade, para aquele dia em que estarão sozinhas e, quem sabe, será o dia em que receberão alguma visita inesperada: é por isso que deixam a abertura, para que a visita não seja assim tão inesperada, para que ocorra porque, de certa forma, as pessoas estavam mesmo dispostas a aceitar que o absurdo é parte crucial da vida.

Os fantasmas começaram uma carreira literária e eram apresentados de modo muito mais substancial do que hoje em dia. Eles eram brancos, tinham forma, eram visíveis ou, no mínimo, era possível ouvi-los a sussurrar alguma coisa ou a arrastar correntes de maneira ruidosa. Os escritores modernistas faziam o fantasma ser apenas uma evocação da saudade, uma lembrança amarga do passado que vinha atormentar o personagem em forma de pensamento, uma variante muito mais bem comportada, mas ao mesmo tempo com um componente assustador, porque o fantasma foi naturalizado, tornou-se o inconsciente e como ele escolhe se manifestar de vez em quando. Virou o inconsciente manifesto de forma exterior. Os escritores transformaram os fantasmas em projeções mentais, incutiram realismo até mesmo nessa licença poética que era a existência dos fantasmas. A verdade é que os fantasmas ganharam uma realidade densa demais. Ganharam vida, começaram a fazer parte do cotidiano. Ainda devem assustar, persiste essa função primordial, mas a verdade é que se são projeções do inconsciente e o inconsciente foi mapeado pelo doutor Sigmund Freud no século vinte, não faz mais sentido que os fantasmas persistam sendo assustadores.

 

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