O crítico 2.5

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Eu tinha deixado crescer a barba e falava sozinho cada vez com mais frequência. O que tem uma coisa a ver com a ver com a outra além do fato de que ambas parecem sintomas de alguém que está ficando louco?, já antecipo que você estará me (e se) perguntando quando ler isso aqui. Mas pretendo provar que não se trata de loucura. Quanto à barba, o que posso dizer é que ela sempre me causa desconforto, mas por um motivo ou outro, acabo deixando que ela cresça em meu rosto e provoque o incômodo. Porque, no fundo, evidentemente, eu gosto de me inquietar mais do que de me apaziguar ou, senão, porque existe um tipo de desleixado em mim que manifesto dessa forma, deixando a barba crescer. Vivo de provocações para com os outros, em sala de aula, mas também e sobretudo para comigo mesmo. Não quero descanso por enquanto e, de qualquer maneira, a barba funciona como uma espécie de compensação pela careca. É outra das razões que me dou para mantê-la.

Provocação é o motor da vida, aquilo que a empurra em direção a algo muito mais interessante do que continuidade e mesmice. Ultimamente, comecei a me provocar dizendo que minha existência não é real, que não passo de uma fantasia tosca de um destino que me ultrapassa em muito. Mas sei que esse é o resultado do efeito colateral de minha solidão, colocar ideias inquietantes demais na minha frente e depois me pedir para lidar com elas. Sou a criação de mim mesmo, despejado no papel para conduzir uma história, sendo que até o momento fiz outra coisa na vida, que era despejar no papel as ideias que encontrava em outra parte, na literatura alheia, mas que precisava compreender e transformar em seguida em ideias próprias, distintas daquelas que estão nos livros, embora alinhadas com o que se encontra neles.

Precisei sair do terceiro casamento para reafirmar aquilo que sempre soube, o convívio com outra pessoa não é meu forte. Quer dizer, tecnicamente, quem saiu do casamento foi Marta. Aprendi a entender que preciso gostar cada vez mais da solidão, de um modo geral, porque é nela que estarei embrenhado cada vez mais daqui para a frente. Não consegui cumprir minha promessa para o meu amigo Eduardo de que ficaria casado com Marta até o fim da minha vida, embora eu tenha tentado com afinco cumprir a minha parte tanto quanto me foi possível. Não vou mentir com aquela conversinha de que sou minha melhor companhia para defender a ideia de que a solidão me agrada, porque a verdade é que tem dias que me olho e me detesto profundamente, mas pelo menos consigo lidar da melhor forma possível comigo mesmo, o que não deixa de causar certo conforto.

Para fazer isso, evidentemente, preciso conversar comigo e eis aí a origem das conversas que tenho sozinho. Não espere que eu vá começar a falar num duplo, por mais tentador que seja: sou apenas eu mesmo e minha consciência. Embora respeite muito a ideia de duplos e sei a responsabilidade literária que esse conceito carrega. Afinal, passei minha vida inteira a estudar literatura e fiz da crítica literária minha profissão: e ela é esse duplo da literatura, esse irmão superego que aponta os problemas e refreia ou estimula as iniciativas. Alguma coisa devo entender a respeito de duplos, um dos temas mais constantes das letras. Quantas pessoas podem se dar ao luxo de dizer que trabalham com aquele assunto pelo qual são perdidamente apaixonadas? Sei que sou um privilegiado, nesse aspecto. Consegui manter meu interesse por literatura mesmo quando tudo concorria para o contrário.

 

2 comentários sobre “O crítico 2.5

  1. Thaís Figueiredo 11/09/2014 / 10:48

    “Consegui manter meu interesse por literatura mesmo quando tudo concorria para o contrário”.

    Essa frase. Ele manteve o interesse pela literatura, talvez, pela propensão à solidão. As narrativas são maravilhosas, problemático é socializar questão literária. Os livros são tão mais legais que as pessoas, que sempre me surpreendo que eles sejam escritos por elas, haha. Deve ser balela. Em algum lugar, durante à noite, devem se autocompor, certeza 🙂

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    • paulopaniago 12/09/2014 / 10:26

      “Os livros são tão mais legais que as pessoas.”
      Essa frase. Acontece que literatura é feita de emulsões das relações dos escritores com… pessoas. E os temas são, quase sempre, a respeito também disso, pessoas. Sim, elas são difíceis. Mas também por isso são interessantes. Porque são limitadas, falhas, e no entanto e por isso, tão humanas. Eu gosto das pessoas, mesmo quando não gosto.

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