O crítico 2.6

Foto | Vivian Maier
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Costumo dizer aos amigos que sou um sobrevivente do sistema educacional brasileiro, que faz todos os dias um tremendo esforço para manter os jovens alunos longe do poder pernicioso da literatura, quase sempre com sucesso. A fórmula para isso é simples, os professores marcam provas nas quais perguntam a respeito do enredo, dos personagens, de datas, enfileiram um monte de bobagens que torna todos muito entediados e pensando em mecanismos para driblar tanta informação inútil. Os alunos aprendem que literatura é tão chata quanto qualquer outra disciplina e, quando se recuperam, se é alguém consegue se recuperar desse massacre, o efeito que a literatura em estado puro poderia provocar já não será tão pernicioso, imagina-se, porque a maioria das pessoas terá simplesmente desistido da literatura. O sujeito cresce e diz continuar gostando de livros, às vezes por conta de algum tipo de pressão social para que mostre interesse por algo nem que remotamente intelectual, mas aquilo que lê quando se dispõe a isso não necessariamente se enquadra no que nós, os críticos, esses chatos cheios de teorias e amor pela solidão, chamamos literatura, ou seja, os livros complexos e difíceis que propõem questões densas e criam problemas para a vida, muitos problemas. Para nós, e esse é o grave defeito que temos, literatura é uma senhora sagrada e cheia de nuances a respeito disso e daquilo. Nós também somos tão insuportáveis quanto os professores que nos deseducaram, talvez porque tenhamos tentado reagir de forma tão veemente ao processo de aprender a não gostar de livros e literatura e exageramos no lado oposto, dizendo amar com uma paixão inigualável o livro e o segredo que ele possui, quando na verdade tomamos gosto é pelas retóricas e trejeitos que vamos adquirindo para falar a respeito do assunto.

Quando Marta, minha terceira esposa, partiu, O segredo dos arquétipos estava indo para a quinta edição e tinha se tornado um sucesso para um livro dessa área tão inóspita. Esse tratado a respeito dos motivadores mais profundos da literatura e da vida tinha encontrado respaldo entre os leitores de um país que não é exatamente conhecido pela generosidade nos hábitos de leitura. Meu editor estava boquiaberto com o fenômeno, um estudo literário que alcança tantas edições em tão pouco tempo, ele sorria, ainda um tanto incrédulo e desconfio que de rabo de olho conferia quanto de dinheiro aquilo de fato ainda poderia lhe render no futuro próximo, antes que as vendas começassem a refluir, destino fatal de qualquer publicação. As vendas por enquanto estavam indo bem e os convites começaram a chover sobre minha mesa de trabalho. Ele parecia contente por ter insistido no título mais comercial, de acordo com seu entendimento. Meu título para o livro era Arquétipos de vida e morte, mas ele discutiu comigo longamente até me dar um ultimato, ou eu aceitava a mudança no título ou o livro não sairia em sua editora. Cedi, num momento de fraqueza em que deixei a vaidade tomar as rédeas da decisão e me fez tomar aquela de querer ser publicado pela editora que se mostrava tão caprichosa no trabalho final de acabamento dos livros, desde a tipografia escolhida ao material empregado na capa, passando evidentemente por um cuidado no design tanto da capa quanto do miolo, o interior do livro. Me sentia arrependido por ter aceito a mudança do título, embora em ambos a palavra importante estivesse mantida, mas devo admitir o fato, o livro estava vendendo bem.

 

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