O crítico 2.7

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Se não fosse um cara tão irritado, teria que dar o braço a torcer e arrumar uma secretária que me ajudasse a organizar a vida de agora em diante. Mas insisto, gosto muito da solidão para contratar uma secretária. Às vezes imaginava esta impossibilidade: Marta voltava, as pernas longas, os lábios carnudos, os olhos verdes e chamejantes, os trapézios dos ombros que me provocavam tanto, humilde, para variar, e pedia para tentarmos mais uma vez. Entre outras ofertas, dizia que iria me ajudar a organizar a vida cotidiana, esse assunto em que sempre fui um sucesso em fracassar. Mas eu sabia que isso era fantasia, ela não voltaria, era apenas minha imaginação supondo um universo paralelo em que a vida é mais feliz, uma fantasia literária que me dizia que eu estava onde deveria, mesmo. Me peça para resolver o segredo do mundo ou pelo menos dos arquétipos que o movimentam, eu serei capaz de falar horas a fio e juntar pontos de conexão inesperados. Mas se tiver que fazer uma ligação pedindo que instalem televisão a cabo no meu apartamento, vou protelar o assunto por dias, imaginando se realmente vale a pena ter televisão em casa.

A vida prática é meu inferno nesta terra. A vida prática e eu somos incompatíveis. Se pudesse viver no mundo imaginário da fantasia criada pela literatura eu seria um sujeito que alcançou o paraíso. A realidade no entanto é uma adversária não apenas exuberante, ela é incontornável. No limite, eu viveria em paz numa biblioteca encalacrada no centro de uma montanha inacessível ou numa biblioteca dentro de uma nave espacial enviada comigo até os confins do universo. Mas comeria o quê? O alimento, a necessidade que meu corpo tem dele, seria um jeito de a realidade forçar sua entrada no ambiente. A realidade ia dar um jeito de descobrir uma brecha para de novo me tirar do sério, tenho certeza.

Boa parte do que me movimenta em direção à literatura, reconheço agora, foi motivado pela incapacidade de aceitar e compreender a ordem profundamente realista que sempre presidiu as relações de minha família. Meu pai, um plantador de café magricelo e determinado, arrumou para se casar uma mulher com os dois pés fortemente plantados na terra vermelha e fértil da região onde se situa a fazenda que foi da família. A nossa é uma família de realistas renitentes, para os quais terra é terra, se bem plantada os frutos nascerão; carne é carne, se você cortar uma vaca terá bife para o almoço. Causas e consequências são relações simples e diretas e não há por que complicar isso com nuances, essa firula que é descartada com um muxoxo e um esticar e encolher de ombros. Um filósofo grego com ideias a respeito de tragédias, dramas, comédias não seria respeitado de jeito algum, se escolhesse a cidade do meu pai para ressuscitar e me dói dizer, mas é a verdade, seria tratado com desdém. Lá, as coisas são como são, o dia é dia e a noite, noite, simples assim. Quando meu pai vendeu a fazenda e se mudou para Brasília, toda a família ficou chocada. Era uma mudança radical demais e nunca explorei o assunto completamente para saber o que foi que o levou a tomar essa decisão. Um sujeito do interior, quando decide se aposentar, não tem como prioridade se mudar para uma cidade grande e cheia de problemas. Isso é um contrassenso e o dever da família foi cumprido, todos o advertiram para o fato. E as opiniões ponderadas e firmes de meu pai sempre tinham servido de referência para todos os membros da família até então, o que foi ainda mais chocante. O curioso na decisão é que ela envolveu a minha mãe, que o acompanhou nessa aparente maluquice sem mostrar muita resistência.

 

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