O crítico 2.8

Foto | Vivian Maier
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A não ser por essa mudança inesperada, meus pais em geral não veem motivos para complicar a vida, a acusação velada que passou a me acompanhar quando manifestei minhas inclinações para o estudo da literatura, embora no discurso tenham me apoiado. Porque para eles é isso o que a literatura faz, complica a vida. Quando olho para o grande quadro de onde extraio o meu passado, reconheço que fica difícil à primeira abordagem compreender como foi que de uma família tão fortemente realista surgiu um crítico literário tão heterodoxo. Uma primeira coisa importante de ser dita é que sou um crítico literário ferozmente realista e, nesse sentido, não sou muito diferente dos outros membros da minha família. Posso reconhecer isso hoje, embora tenha sempre me inquietado a presença do realismo na literatura e tenha, em diversas ocasiões, tentado me insurgir contra esse princípio, lutando nas trincheiras do ostensivamente fantasioso. Paixões da juventude, desculpo-me hoje em dia da inocência com que me debrucei para tentar me opor a algo que estava profundamente arraigado em mim.

Quando me deparei a certa altura com os livros de Harold Bloom e praticamente podia escutar a sua voz quando me punha a ler a teoria na qual ele discorre a respeito do sublime como uma das maiores potências da literatura, comecei a me dar conta de que era possível defender ideias abstratas e imaginativas de uma forma que não é apenas lógica e coerente, mas profundamente arraigada nos princípios realistas. Bloom brigou a vida inteira contra os meios acadêmicos norte-americanos para impor a própria voz. Ele passou a vida a defender que, para possuir uma prosa ou poesia distinta, o escritor precisa encontrar seu precursor forte e desafiá-lo para um duelo intelectual. A formação do cânone literário — uma das obsessões de Bloom — se dá por meio dessas disputas de força, todo mundo medindo para ver quem tem o pau maior. No fundo, não passamos de crianças tolas aprendendo a lidar com nossos brinquedos. O pior de tudo é que Bloom está correto em boa parte dos argumentos de que lança mão. Ao falar do sublime como a grande busca literária, por exemplo, o que ele está deixando claro é que se deixa movimentar pela paixão, a paixão pelo sublime. Por sua vez, o sublime decorre do conceito de estranho, que Bloom retira de Sigmund Freud (e esse, por sua vez, procura o conceito em Friedrich Schelling). O que é estranho nos provoca a todos os leitores, o que é estranho pode nos levar a entender o que é o sublime literário.

Às vezes fico pensando que se não fizer qualquer tipo de esforço, o mundo vai se esquecer de mim e me deixar em paz. Então abro a caixa de e-mails e olho para todos aqueles que aguardam algum tipo de providência e simplesmente me recuso a tomar qualquer uma que seja. O mundo que espere, digo silenciosamente, com aquela minha voz da consciência, a única de nós dois que é habilitada para dizer a verdade. Então vou ler, ou escrever alguma coisa do meu agrado.

Quando decidi fazer esse relato, imaginei a estrutura de uma escalada, como as que eu fazia na minha juventude. Ela começa fácil e simples, você ainda está perto do solo e pode voltar se algo der errado, ainda há muito o que subir e o cume está longe. À medida que progride, a escalada se torna mais difícil, o cansaço surge e deve ser incorporado para que se continue, você está num ponto em que não pode simplesmente recuar, porque de qualquer forma terá que percorrer o trecho todo de volta e é melhor se concentrar e criar incentivos para continuar a subida. E então, quando atinge o cume e sente uma estranha felicidade, que resulta de perceber que você foi capaz de se superar, de superar as limitações e, se soube ter o devido respeito pela montanha, ela retribuiu permitindo que você a escalasse. Houve tempo que achei que esse conceito, muito comum entre alpinistas, era uma bobagem. A montanha não está nem aí se você a respeita ou não, eu pensava. Ela simplesmente não liga, é uma montanha e pronto. Essa necessidade de conexão com a natureza não passa de um substituto imbecil da necessidade de conexão com o mistério da divindade, apenas com a transferência da divindade de uma instância celestial para elementos da natureza. Discuti com vários alpinistas por conta disso, quando ainda escalava. Eu acreditava que o respeito devido era a você mesmo, sua capacidade de manter a concentração para não provocar erros enquanto escalava. Eles olhavam torto para mim. Escalar foi um excelente aprendizado para a convivência com meus pares mais tarde, quando passei a me dedicar com exclusividade à crítica literária. Mas estou fazendo digressões.

 

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