O crítico 2.9

Foto | Vivian Maier
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O que queria dizer é que o relato tem a semelhança proposital com uma escalada. Ele vai se adensando, portanto vou cada vez mais falando em termos conceituais e menos narrativos, e depois de atingir o cume, o que se dará no próximo capítulo, é hora se fazer o caminho de volta e descer a montanha, o que também tem especificidades e cuidados. A literatura, especialmente o romance, sempre aceitou essa invasão bem vinda de outros gêneros, inclusive o ensaio de cunho literário ou filosófico. Quanto mais próximo de chegar de novo ao solo, mais narrativo será o relato. Essa mudança sutil de direcionamento vai ser um desafio para os leitores, pois suponho que nem todos estejam dispostos a fazer esse tipo de escalada que se afasta de elementos narrativos para elementos mais abstratos e conceituais, do mesmo modo como nem todo mundo está disposto a fazer escalada e há quem prefira a horizontalidade da natação. Quando ideias filosóficas eram inseridas em romances, no século dezoito, isso era feito utilizando-se um personagem que, no meio de uma trama qualquer, fazia digressões e explicava algumas ideias, mas logo alguém era solicitado a servir mais um copo de vinho, algum recado era enviado à cozinha ou uma pessoa entrava com uma carta. A noção de enredo estava arraigada e não poderia ser retirada de cena, sob pena de o propósito literário se perder. Portanto, quando Denis Diderot escreve, por exemplo, Jacques, o fatalista, e seu amo, ele não se esquece de fazer essas amarrações na trama para que o romance continue a levar essa denominação. Quando o autor tinha propensão ao ensaio, as ideias seriam de alguma forma dissolvidas em narrativa, o que não é meu propósito aqui, pois pretendo separar as partes, como o leitor já terá percebido que vem acontecendo. Mesmo que de forma suave, de modo que alguma narrativa sempre se mantém, mas isso também é uma das características do ensaio criado por Michel de Montaigne no século dezesseis. Ao fazer questão de manter a primeira pessoa, Montaigne conferiu um ar de conversa ao ensaio que o aproxima muito da narrativa literária, o que talvez tenha sido de uma sagacidade intuitiva (intencional?) enorme. Mas a literatura não é sempre fácil e acessível, ela também impõe por vezes certos desafios e me agrada pensar que um escritor como o irlandês James Joyce poderia ter sido esquecido como um experimentalista empedernido e desinteressante e, no entanto, até hoje é tomado como uma das principais referências literárias do século vinte e estudado com afinco por um grupo considerável de pessoas no mundo todo. Joyce é o exemplo de que a escalada funciona. Ele virou uma montanha que muitos procuram conquistar. Gosto muito e uso com frequência as palavras de um grande pensador francês, Paul Valéry, que a maioria das pessoas ainda insiste em ver como um poeta. Ele disse certa vez: “Meu fácil me enfada, meu difícil me guia. Absolutamente todos os livros que li e todos os que me foram úteis foram difíceis”. Me lembro que decorei essa citação e sempre que falava de literatura dava um jeito de inseri-la na conversa. Estou citando de memória e talvez minhas palavras atribuídas a Valéry não estejam exatamente precisas, mas o conceito é o importante, de modo que vai assim mesmo.

De modo geral, o trabalho do crítico consiste em dominar a própria solidão, entender que terá que passar horas e horas a fio enclausurado numa sala com livros, cadernos de anotação, computador e ideias. O crítico deve malhar essas ideias, convertê-las em algo digno, provocador. É, por um lado, muito desinteressante para a maioria das pessoas, porque o sujeito senta-se e escreve, escreve e escreve. É uma rotina muito pouco estimulante, vista à distância. Ninguém quer acompanhar o trabalho do crítico sendo feito, não é exatamente bonito ou inspirador, a não ser que o sujeito esteja à procura de uma imagem reflexiva. A apresentação dos resultados, o livro e depois os debates públicos que o crítico deverá sustentar, isso talvez desperte alguma atenção. Mas num país como o Brasil, essas discussões estarão contidas em lugares muito específicos, as salas de aula, os auditórios e os anfiteatros de universidades, cujas publicações, as revistas acadêmicas, concentram pequenas brigas localizadas. Em geral, ninguém está fazendo um escarcéu grande demais para sair desse perímetro que foi estabelecido. Os jornais se interessam cada vez menos pela literatura, depois de terem sobretudo se alimentado reciprocamente dela, ao longo do século dezoito, quando o romance (novel) superou com o realismo as estórias romanescas (romance) e se impôs socialmente como um gênero que conquistaria mentes e corações. É fácil entender os motivos para isso, o romance mistura ideias e conceitos dentro de narrativas, tramas, enredo. O ser humano sempre gostou de uma boa história, o narrar é uma forma muito competente de compreender o mundo em volta. A verdade é que os jornais não podem ser responsabilizados se, no mundo atual, as pessoas preferem outras formas de narrar que se apresentam com grande competência e substituem o papel antes desempenhado quase com exclusividade pela literatura. A tendência dos jornais é de perceber essa alteração e registrá-la, não se opor a ela, dificilmente os jornais serão a vanguarda de qualquer coisa, eles se contentam com exercer o papel coadjuvante de observadores, nem sempre tão imparciais quanto gostam de se apresentar. Mas eu estava falando a respeito de locais onde o debate acerca de literatura se apresenta. Um deles, muito interessante, aconteceu exatamente no anfiteatro de várias universidades quando, nos anos oitenta do século vinte, um sujeito criou um programa de levar intelectuais para discutir ideias em torno de um tema comum. O sujeito, Adauto Novaes, percebeu que era possível fazer uma espécie de show itinerante articulado em torno de ideias e trabalhava num órgão público, chamado Funarte, uma fundação de apoio a iniciativas de arte. Descobriu que era possível, com as leis em vigor, levantar fundos junto a empresas privadas e articulou um belo projeto. Levou a nata do pensamento que conseguia interessar um público grande para discutir os sentidos da paixão, os libertinos e libertários (sexo e política misturados), o olhar, enfim, qualquer tema que pudesse ser tratado por especialistas em filosofia, literatura, estética, arte. Cerca de vinte anos mais tarde, um pouco menos, um pouco mais, apareceram as festas literárias que juntam um público laico para ver escritores brasileiros a servir de abertura para a presença de escritores internacionais, sobretudo os de repercussão imediata, e não vou analisar a sociologia que levou o leitor brasileiro a preferir escritores de fora, não vou dizer se a incompetência deve ser do leitor, se é responsabilidade das editoras que preterem autores nacionais, sobretudo na hora de estabelecer suas estratégias de divulgação, ou se o autor brasileiro está desconectado inteiramente de conseguir conversar com o público de casa, não compreendendo quais os verdadeiros temas de força arquetípicos que poderiam atrair o interesse. Intuitivamente, Nelson Rodrigues tocou o dedo em uma das feridas da nação ao falar no conceito de complexo de vira-latas para nos definir. Machado de Assis às vezes me parece mais competente do que os tais pensadores do Brasil, os sociólogos, antropólogos, cientistas sociais. A análise, de todo modo, teria que considerar de verdade a tendência nacional (e não apenas no campo da literatura) de não dar muita bola para o próprio país e para os talentos locais, o que enche Nelson Rodrigues de razão. O nacionalismo, que é sempre um perigo mas que também dá a medida do orgulho de um povo, sempre foi um tanto avesso e isso não pode ser encarado apenas como decorrência de uma teoria da dependência, porque ela não vai ser capaz de explicar tudo. Acresce que se trata de uma festa, ou seja, os escritores vão até lá, despejam palavras sobre o público, que pode fazer perguntas apenas por escrito, para evitar aqueles longos discursos que muita gente pode se sentir estimulada a fazer e para manter um controle estrito do tempo de apresentação de todos, e depois talvez façam uma sessão de autógrafo e isso é tudo. É uma vitrine muito estranha para um escritor, imagino, exibir-se com hora marcada e quem sabe conquistar mais uns quinze ou vinte leitores, o que no caso brasileiro é uma pequena conquista de montanha. Mas há escritores que se especializaram nesses encontros com o público e percorrem o circuito das festas literárias, com a sensação de que existem os leitores e ele está de alguma forma cumprindo o papel de procurá-los fisicamente. Não sei, mas lastimo e sinto um pouco de falta daqueles momentos em que alguém da plateia podia fazer perguntas longas e às vezes brilhantes, que estimulavam o autor a pensar novamente a respeito dos conceitos que havia arrematado. Tudo bem, entendo que o formato era diferente porque, afinal, os convidados não eram escritores em primeiro lugar, mas sobretudo pensadores, críticos capazes de arregimentar as ideias de outros críticos e pensadores que os ajudavam a pensar certas questões. Que o escritor fosse forçado a ser um pouco autocrítico, ou quem sabe se houvesse um modelo que mistura um pouco da felicidade da festa literária com o debate um pouco mais consistente, isso talvez fosse o suficiente para resolver o problema.

 

2 comentários sobre “O crítico 2.9

  1. Mirian Oliveira 14/09/2014 / 19:04

    uma enxurrada brilhante, de tirar o fôlego, paulo. parabéns.

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    • paulopaniago 14/09/2014 / 19:52

      Obrigado, Mirian, mais uma vez. Sempre fico à espera de ler o que você anda pensando a respeito das coisas que escrevo aqui. Abraço.

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