O crítico 2.10

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

O que eu quero dizer, na verdade, é que eu fiz durante um bom tempo o meu papel de crítico e li bastante a respeito da minha área. O pensamento de vários teóricos me guiou e muitos deles, como queria e preferia Paul Valéry, não eram fáceis. Tudo o que eu consegui pensar, portanto, a respeito de arquétipos e coloquei em O segredo dos arquétipos vem dessa bagagem que não pude evitar de carregar comigo, mas me agrada pensar que foi não só a clareza dos argumentos mas talvez algum sabor de novidade que atraiu a grande quantidade de leitores que o livro vem tendo e que me deixa contente, porque acho que tenho alguma contribuição para o debate a respeito dos caminhos da literatura, e ao mesmo tempo me contenta a vaidade, agora que estou recebendo atenção por conta das ideias que cunhei. Posso aproveitar meu momento sob o holofote para divulgar aquilo que penso, e me agrada pensar que é isso mesmo o que precisarei voltar a fazer, ou seja, refletir, quando passar o momento das atenções que venho recebendo por conta do livro. Se por um lado a minha vaidade fica satisfeita com a atenção que me vem sendo dispensada, por outro eu sei que o importante é continuar avançando nas ideias e essa badalação da festa às vezes me soa um pouco cansativa, para mim que sou naturalmente um ser ruminante que tem respeito pelas minhas origens. Prefiro a calma do escritório, devo confessar, embora insista, minha vaidade se agrada com a atenção e todos os convites.

Sei que esses encontros na arena também são importantes e eu poderia, se tivesse talento, me fiar exclusivamente neles daqui para a frente, mas não vejo a hora de me afastar de novo e voltar a pensar a respeito de certos assuntos. Eu poderia escrever um livro a respeito de fantasmas, por exemplo. A vida dos fantasmas, um bom título que me ocorreu. Como a literatura tratou essa questão ao longo do tempo, as diferenças de abordagem entre autores de diferentes épocas, há muitas possibilidades de estudo. Ou poderia fazer uma avaliação a respeito do que acontece no circuito brasileiro relacionado com a crítica. Poderia escrever um livro chamado Notas críticas a um crítico e com ele produzir uma reflexão a respeito dos caminhos percorridos por todos para pensar literatura.

Às vezes acredito que a literatura é uma doença. Ou melhor, não a doença, em si, a doença tenho eu. Mas ela se torna aquilo que agrava a doença, o veneno que piora minha condição, em vez de funcionar como antídoto para os problemas que tenho.

 

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