O crítico 3.2

Foto | Vivian Maier
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A verdade é que passei boa parte da minha vida diante de algum livro e diria que foi a melhor parte dela. É como se tivesse me recusado a viver a minha vida para ficar mergulhado no lado de dentro do cérebro, acompanhando essas outras experiências, essas outras vidas que foram transformadas em ficção ou em ideias e conceitos expostos em livros. Primeiro, porque de fato parecem ser bem mais interessantes. São vidas que se passam em outros lugares, com outra ações, com outras cidades e outras cores, com conversas diferentes. Sou um péssimo conversador, um sujeito sem grande talento social, não sei deslizar de um assunto para outro, não tenho esse poder de oratória que encontro em vários dos meus amigos, mesmo naqueles que são pessoas triviais e que não estão dizendo nada de muito diferente ou de muito relevante. Mas eles têm o poder de envolver os outros durante uma conversação e as pessoas ficam em silêncio e escutam o que está sendo dito.

No meu caso, eu tenho a impressão de que a vida se divide em duas partes. Numa dessas partes existe o mundo real, concreto, e estou mergulhado nele até o pescoço, não há alternativa. Esse mundo tem regras de convívio e rotinas, o sol nasce e se põe todos os dias, as pessoas precisam ser gentis umas com as outras para sobreviver com o mínimo de harmonia. É nesse mundo que os amigos precisam se encontrar em reuniões nas casas ou apartamentos uns dos outros e conversar a respeito dos assuntos em pauta, emitir opiniões, contar piadas, discutir futebol ou o último livro que leram, mas a discussão é sempre superficial, um desfile de lugares-comuns emoldurados por piadinhas engraçadas, hahaha, que fazem todos rirem e também contarem a sua.

A outra parte da vida é interna e lido com ela melhor quando estou sozinho. É quando entro em sintonia com o lado de dentro e falo comigo mesmo com uma voz séria que uso para acessar minha consciência. É a voz que aparece quando leio as palavras dos autores e sigo os raciocínios que eles colocam no papel. É a voz que procura entender as nuances de uma ideia e de outra, mas também é a minha própria voz que discute silenciosamente e sem amarras com aqueles argumentos dispostos no papel. É uma voz firme e que enfrenta de forma decidida até mesmo as hesitações do meu pensamento, ao contrário da voz da vida real, que realmente pode parecer trêmula em momentos de tensão. É a melhor parte de mim, a mais honesta. Para os meus amigos eu apresento o sorriso desenhado pela minha hipocrisia. Para eles eu tento me esforçar para ser interessante e sei que por precisar fazer esforço é que não sou mesmo interessante. Mas eles são gentis e cínicos comigo também, de modo que jamais dirão na minha cara o quão comum, trivial ou corriqueiro eu sou. Do lado de dentro isso não ocorre. Sou senhor dos meus domínios e me trato de maneira implacável, raramente me acho realmente interessante, embora entre todos os aspectos medíocres eu saiba às vezes quando estou acertando em alguma coisa. O que me inquieta quando penso na morte é saber que não poderei ter a companhia de um bom livro para ler eternidade afora.

 

2 comentários sobre “O crítico 3.2

  1. Karla Kélvia 18/09/2014 / 8:48

    Mas até na morte alguém já deu um jeito de achar literatura do lado de lá… (Brás Cubas!). Adorei seu texto, apesar de achar que sou articulada socialmente, eu tb vivo outra vida interna graças às minhas leituras.

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    • paulopaniago 18/09/2014 / 9:14

      Karla, acho que na verdade existe uma tradição enorme de literatura a respeito do lado de lá, e o Brás Cubas é um dos excelentes exemplos. Obrigado pelo elogio e creio mesmo nisso, que a leitura proporciona outra vida, bem interessante.

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