O crítico 3.3

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Não posso falar dessas coisas na terapia, porque minha psicóloga ia achar que tem algo errado aí e que precisa me consertar. Vamos trabalhar essa sua autoestima, ela me diria, e em seguida iria tentar juntar os cacos daquilo que julga que está quebrado dentro de mim. Mas acontece que minha autoconsciência precisa saber quando eu sou bom e quando sou ruim, é por isso que se chama consciência. Do lado de fora, quando cometo erros ou equívocos, as pessoas podem apontar os erros e sugerir que eu os corrija, ou me perdoar, caso percebam que não tenho vontade, disposição ou capacidade de fazer a correção. Também podem desistir de mim e ir cuidar das próprias vidas, me deixar sozinho com meus erros e com minha visão de mundo com a qual não concordam e que desistiram de tentar mudar. Ótimo, é assim que as relações se estabelecem e é assim que as pessoas se aproximam ou se afastam umas das outras. Porque têm afinidades e porque têm desentendimentos.

Às vezes, uma ponte se estabelece entre esses dois lados da minha vida, mas quase sempre para demonstrar que são ilhas e não deveriam se comunicar muito. Abro a boca para dizer o que verdadeiramente sinto ou penso e o resultado é quase sempre desastroso. As pessoas se sentem magoadas ou ofendidas, porque o que digo é franco e apareceu sem filtro. É claro que com isso aprendo a conter a minha língua e a guardar o meu pensamento exclusivamente para mim ou para as coisas que escrevo. Quando abro a boca é para compartilhar alguma platitude, aprendi a lição. Se é alguém que está me conhecendo, a pessoa talvez leve um susto ao ver que existe uma grande distância entre aquelas palavras que leu num ensaio, num artigo ou num livro escrito por mim e sente que aquele sujeito de carne e osso, com a voz meio anasalada e um tanto careca, com um nariz grande, que fala de um jeito meio canhestro, como se para abrir a boca e expressar uma linha de raciocínio fosse o resultado de um enorme esforço, quase sobre-humano, para aparentar normalidade, quando claramente o que se percebe é que há um tipo qualquer de descompasso, aquele sujeito, dizia, não pode ser o mesmo que escreveu aqueles textos. Claro que essa percepção que tenho de mim mesmo não é a que meus amigos têm e eles vivem me falando que eu sou mais normal do que acredito, que falo normalmente, que não há nada de errado com os meus modos de me expressar em público e que, se eu quisesse de verdade, poderia ser habilidoso nas conversas de salão. Eu os escuto dizer essas coisas e fico pensando se são verdadeiras, ou se eles estão sendo tão cínicos comigo quanto sou com eles, como se estivessem me dando o troco, ou melhor, me pagando na mesma moeda. Abrem um sorriso e dizem, o que é isso, Roberto, você é normal, cara, você fala normal e age normal, não é mais nem menos louco do que qualquer um de nós. Você devia parar com essas ideias meio piradas, antes que fique realmente louco.

Eu estava lendo um livro. É uma das atividades mais corriqueiras para mim. É parte do meu trabalho, mas também é grande parte da minha vida. Uma das coisas que faço mais naturalmente. Então me dei conta de que todos os meus ensaios poderiam começar com essa mesma frase: eu estava lendo um livro. É um treino para a solidão da morte, mas de qualquer forma o treino é ineficaz, uma vez que minha cabeça está cheia de ruídos que não cessam mesmo quando estou sozinho — sobretudo quando estou sozinho, verdade seja dita.

 

2 comentários sobre “O crítico 3.3

  1. Patricia 20/09/2014 / 0:10

    Gosto do seu jeito, vale a pena.

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