O crítico 3.6

Foto | Vivian Maier
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Dar aula na universidade foi a saída digna para o que eu tinha em mente: desenvolver uma teoria literária. Vamos lá: o fato é que, no Brasil, ninguém liga para teoria literária. Os cursos de letras são um campo de batalhas entre todos e todos e as pessoas gastam o tempo lançando granadas contra os inimigos a partir de suas trincheiras. Ninguém tem tempo para pensar em teoria, que dirá para formular uma. O desenho dos cursos favorece aulas, não o pensamento. A ideia é concentrar-se na formação de mão-de-obra para o ensino fundamental e médio e com os planos de expansão educacional do governo, sempre são necessários novos professores. E acontece esse estranho fenômeno: levas e levas de gente jovem que escolheu fazer letras porque dar aulas ainda parece digno de alguma forma, embora os salários digam exatamente o oposto, ou as pessoas querem fazer letras porque é um curso fácil de entrar e com um diploma de curso superior você pode fazer concurso público (eu não me livro disso por nada nesse mundo) bem melhor. De modo que chegam aquelas jovens ao curso interessadas em conversar rápido demais, uma característica das novas gerações, essa pressa nos enunciados como se não houvesse tempo para dizer tudo o que é preciso, e isso deixa os meninos um tanto perplexos, porque não conseguem acompanhar o ritmo veloz, ou senão estão todos mergulhados no maravilhoso e estupendo mundo virtual das mensagens de celular, lançando as próprias consciências para um local distante de onde o corpo se encontra. Ao chegar à universidade treinados por anos a fio na arte da dispersão, esses jovens vão sentir um choque terrível de ter que se concentrar num só assunto, o que lhes parece um desperdício sem fim, e começam a achar que o erro é dos professores, esses velhos defasados que não conseguem acompanhar o ritmo das mudanças — a mudança a nossa lei a reger todas as relações daqui para a frente e mandamos para prisão os que não se adaptarem, começando por favor pelos professores universitários, esses chatos que insistem para que os jovens desliguem seus aparatos eletrônicos, inclusive o celular. Por sorte cada vez menos essa exigência é feita. A capacidade de raciocínio inversamente proporcional à de dispersão, o assunto que dominam como ninguém. Tudo é muito chato e muito demorado, os velhos segurando os garotos que correm e dizendo não corram tanto, cuidado ao atravessar a rua. Mas, não tendo como se livrar desses quatro anos de trabalhos forçados, o que jovens fazem é abaixar a cabeça, resmungam pelos corredores e comentam nas redes sociais, tratam a leitura como mal necessário e um tanto de descaso. Enquanto isso, os professores não reparam, ou até reparam, mas não o suficiente para intervir e fazer alguma coisa, porque estão mergulhados em suas guerras de guerrilha particulares, desatentos a esse descompasso, a esse fosso que vai se aprofundando.

Eu conseguia perceber isso porque, embora alheio às batalhas sangrentas, tanto quanto ao clima de descomprometimento dos alunos, eu era uma espécie de observador externo, um peixe fora d’água que conseguia ver a bagunça dentro do aquário. Havia dado um jeito de manter no mínimo a carga horária dentro de sala de aula e usava o restante do tempo livre para desenvolver a teoria, lia e fazia anotações, muitas anotações. Minha estratégia, no entanto, tinha falhas. Eu evitei publicar artigos científicos em revistas especializadas e não participava além do estritamente necessário de congressos, encontros, mesas redondas. Estava voando abaixo da linha do radar e aquilo era arriscado. Enquanto isso, escrevia o livro, que por sinal estava ficando enorme. Eu não me importava: sempre me pareceu que encontraria um dia um editor que não só iria se agradar da leitura da minha teoria, como faria de fato o papel de sugerir os cortes nos pontos certos. Eu era otimista quanto a isso, o que é uma outra forma de dizer que eu era completamente inocente do que é um editor no meu país.

 

2 comentários sobre “O crítico 3.6

  1. Patrícia Aline 23/09/2014 / 14:30

    Realmente nossa geração é assim…é difícil parar, respirar e refletir. rsrs

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