O crítico 3.7

Foto | Vivian Maier
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Seja como for, encontrei tempo para me dedicar ao pensamento de questões literárias. Da forma como eu lia e percebia a importância da literatura, havia algo nela que atraía os leitores: a capacidade de afirmar certas questões não atreladas ao tempo ou apenas às circunstâncias. As tramas mudam, as morais mudam, mas aquilo que se busca na literatura continua lá e continua importante, motivo pelo qual ainda se lê Homero, Ovídio, Miguel de Cervantes, William Shakespeare. O recado não se altera, apenas o modo de percebê-lo. Então comecei a pesquisar o que exatamente era esse recado da literatura e cheguei à conclusão de os humanos estão em busca de entender quais são os motivadores fundamentais que os estimulam. Lá estavam, portanto, os arquétipos, esses valores principais, os motivos, fundamentos, princípios que explicam ações humanas. Desde os mais básicos, ou seja, os arquétipos dos arquétipos, a oposição fundamental sob a qual tudo o mais se articula: vida e morte. Vida: aquilo que está em movimento, em agonia, em conflito ou em êxtase, mas sobretudo em movimento. E morte: a ausência de movimento, o escuro absoluto, aquela ordem avassaladora que parece envolver tudo, embora a vida apresente resistência. Do embate entre essas duas magnitudes o universo estabelece um ponto de referência. Para os humanos, a ideia de saber que a constituição de boa parte, para mais de setenta e três por cento, dos universos que se supõem que existam seja de energia escura (um nome que se deu ao que não se sabe exatamente o que seja) é um sinal desalentador. Significa que a morte parece estar ganhando a guerra. Mas ainda assim, os humanos olham em volta de si, um olhar imediato e restrito à Terra, e o que se vê é a vida, pequena, voraz, agitada, movimentando-se furiosamente. Do que ela é feita, como se articula com outras vidas, o que isso pode significar são questões não inteiramente respondidas. A vida é o que se tem antes de se entrar no território extenso e definitivo da morte. Portanto, intensidade dá um norte. Enquanto os outros campos do conhecimento explicam o que fazem os vivos com a vida, a literatura arrisca-se a contar o que se passa do outro lado, usando para isso sua ferramenta crucial: a ficção. É uma narrativa que ajuda a organizar o entendimento. Ao fazer isso, o que a literatura deseja não é afirmar algum tipo distorcido de predileção pela morte, mas ressaltar para os distraídos a importância da vida, pois afinal é essa a grande aposta da literatura. Ela diz, você está vivo, portanto aproveite, porque não dura muito. E enquanto está vivo, procure entender direito o que isso quer dizer.

Um dos mecanismos da literatura para estabelecer essa relação com o outro lado, com a morte, é criando narrativas a respeito de fantasmas. Eles seriam esses sinalizadores do outro lado, que voltam e interagem com a vida de alguma maneira, estão no limiar, na fronteira entre os dois mundos. Às vezes os fantasmas aparecem para seduzir alguns vivos para a morte, às vezes para resolver questões que deixaram para trás, às vezes simplesmente porque fazem parte da ordem do absurdo, essa reserva de insanidade que sempre ameaça o projeto humano como um todo. O meu pressuposto, no entanto, era o de que toda vez que a morte ou o além aparecem nos livros, eles aparecem para valorizar o oposto, ou seja, a vida. A morte funciona também como lembrete: seu tempo de vida é escasso, sujeito, portanto aprenda o usufruir o melhor possível dela. A verdade é que todos os seres humanos parecem ter sido desenhados para esquecer que precisarão morrer, que estão condenados a isso. Primeiro, disfarçando. Fingindo que se pensa em outra coisa. Depois, tirando do campo de visão o mais rápido possível o cadáver dos mortos (os homens de Neandertal enterravam os cadáveres dos mortos, o que mostra quão antigo é esse pavor do convívio no mesmo plano, o plano da vida, com o corpo do morto, como se ele fosse contaminar de maneira mais rápida o vivo com o veneno da morte) para que se possa continuar fingindo que a morte é sempre um evento alheio, não próprio, e o tique-taque do coração não é o da bomba-relógio que anuncia o quão mais próximos estamos todos do momento fatal. O papel, nesse caso um tanto desagradável, mas nem por isso menos importante, da literatura, é alertar, apontar o dedo para o problema e, também, se possível, servir de consolação. Nesse sentido, a literatura se aproxima da filosofia, cuja existência, segundo os velhos filósofos clássicos, é ensinar a morrer. Tanto que há um tratado com o título de A arte de morrer, que reúne dois textos, um de 1415, outro de 1450. A ideia é explicar os procedimentos para se morrer bem, de acordo com a visão do cristianismo. O livro é anônimo, atribuído por pesquisadores a um frei dominicano, e provavelmente foi escrito como espécie de resposta ao contexto da peste negra que fez grande estrago sessenta anos antes, quando a morte tornou-se muito voraz e avassaladora.

 

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