O crítico 3.8

Foto | Vivian Maier
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William Shakespeare vai dizer, em A tempestade, pela boca de Próspero: “A cada três pensamentos, um será dedicado ao meu túmulo”. E nem preciso mencionar que o grande monólogo de Hamlet a respeito do ser ou não ser acontece com o crânio de Yorick numa das mãos, no cemitério onde o corpo de Ofélia está prestes a ser enterrado. O recado de Shakespeare: pensa na morte, enquanto você vive. Isso deve te fazer perceber o quão importante é estar vivo, precisamente porque é precário. No caso da época de Shakespeare, mais que simplesmente precário, é mesmo muito provisório, uma vez que as expectativas de vida andavam bem curtas.

Uma peça alegórica do século quinze, Everyman, tem como tema a convocação dos vivos para a morte. Uma das traduções possíveis para esse título é Homem comum. Com exatamente este título, que faz referência ao texto clássico, Philip Roth escreveu um romance a respeito da morte, ele que escreve tão bem a respeito dela, exatamente porque sabe que isso ressalta o poder da vida. Para mencionar novamente O teatro de Sabbath, basta lembrar que o personagem vai à procura dos túmulos paternos num pequeno cemitério judeu e, por ter roubado dinheiro de amigos, decide gastar com a compra de um túmulo, porque está determinado a abreviar a vida. O suicídio também é um dos temas de força que se devem contar entre os exércitos da morte. Ele é normalmente mal compreendido porque parece um tanto absurdo abreviar o tempo já naturalmente breve da vida, mas há que se considerar que nem todo mundo parece ter talento para suportá-la e há quem atribua um peso insustentável à existência. Não é o caso de Sabbath, no entanto, que trata assuntos que lhe dizem respeito com misto de burla e farsa. Ele é homem de teatro, afinal, um titereiro forçado à aposentadoria porque ficou artrítico. Na cabeça conturbada de Sabbath, o raciocínio segue mais ou menos a lógica: “Era impossível enumerar todas as grandes ideias que ele não realizara; não havia fim para tudo aquilo que ele tinha a dizer a respeito do sentido da sua vida. E algo engraçado é supérfluo — o suicídio é engraçado”. Não é todo mundo, claro, que consegue se dar conta de uma coisa dessas. Seria um fiasco, ele pensa, morrer de outro modo que não aquele. Então Sabbath considera: “Para qualquer um que adora piadas, o suicídio é indispensável. Para um titereiro, em especial, nada existe de mais natural: desaparecer por trás da tela, introduzir a mão e, em vez de encenar ele mesmo, representar o finale na condição de fantoche”. Um homem que quer morrer, que escolhe essa saída, isso deve ser divertido, Sabbath conclui.

Toda a reflexão que surgirá com a psicanálise vai girar em torno de patologias, ou seja, nessa pulsão do ser humano que o arrasta em direção à morte — e saber que existe outra em sentido contrário, a pulsão para a vida, tão intensa e interessante, consola um pouco, mas nem sempre se mostra suficiente. Angústias, depressões, manias, aquilo que escapa do controle e aquilo que traz à tona o Mr. Hyde escondido na parte submersa do iceberg humano dentro de todos os Dr. Jekyll que existem sobre a face da Terra, esses temas estiveram sob a análise cuidadosa do doutor Sigmund, em Viena, no fim do século dezenove e início do século vinte. Esse sujeito que propôs uma escuta atenta das angústias dos pacientes para tentar lhes curar a alma, ou seja, a mente. Não uma escuta permanente, pois isso seria impossível, mas uma escuta eficiente, resolutiva, aplicável em situações de crise. Uma escuta que redunde em ações de reparação, para que o sujeito possa restabelecer uma personalidade razoável (falar em normal seria uma afronta que não vou me permitir) e retomar para si a vida.

 

4 comentários sobre “O crítico 3.8

  1. Mirian Oliveira 23/09/2014 / 23:44

    texto maravilhoso. encarar a morte, via literatura, é uma delícia. aliás, só a literatura para aliviar o tal “peso insustentável” da existência, tão breve e preciosa, ao mesmo tempo. mais uma vez: você escreve muito, paulo. grata por isso.

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    • paulopaniago 24/09/2014 / 14:28

      Mirian, a morte é um dos grandes temas de força da literatura e, quando penso a respeito dos motivos, me vem esse: a literatura tem liberdade para dizer o que bem entender sobre o tema tão difícil, uma vez que outros campos (antropologia, sociologia, psicologia) se aferram aos vivos e como eles encaram a questão. A literatura, não, ela pode supor o que acontece “do lado de lá”.

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  2. Mirian Oliveira 28/09/2014 / 14:14

    a morte é meu tema predileto, em literatura. talvez porque eu esteja tão cansada de morrer todo dia. a literatura me salva da vida, paulo roberto.

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