O crítico 3.9

Foto | Vivian Maier
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A morte, a escuridão absoluta, a quase totalidade do universo, o conflito irresoluto, a totalidade de negação que ela apresenta. Incapacitado para a morte, o ser humano começou a supor a perpetuidade da vida: ressurreição, vida após a morte, a recusa pura e simples, a ideia de imortalidade, a conservação dos corpos de mortos para que estejam bem quando vier a ressurreição possível. “O não abandono dos mortos implica a sua sobrevivência”, argumenta Edgar Morin em O homem e a morte. Não só o homem não abandona os mortos, como não os abandona sem ritos, mas também não quer ficar por muito tempo próximo ao corpo em putrefação.

O filósofo que perguntou porque não havia antes o nada, Leibniz, se não me engano, devia ser informado a respeito das larguezas do universo. Ele poderia inverter a pergunta: por que existe um ser e ele é tão pequeno? O Nada preenche boa parte do universo, meu caro Leibniz, você não sabia disso? O Nada é gigantescamente potente. A morte em contraste com tudo aquilo que representa a vida, a voluptuosidade da vida, seu agitar permanente e inquieto e exatamente por isso mesmo tão interessante, essa tendência do universo inteiro para a confusão, mas tudo numa calma aparente e um tanto silenciosa, esses conflitos são muito fascinantes. O grande guarda-chuva da vida abriga uma série grande de contrastes impressionantes para se opor à matéria escura que predomina no universo e que além de tudo transforma a Terra e todos os seus habitantes em cisco de quase nada. O filósofo Heráclito postulou um preceito forte: “Viver de vida, morrer de morte”. No lado da morte, ou mais próximo dela, estão as crises do corpo: doenças, dor, sofrimentos, angústias, queixas, sintomas, depressões. Claro, sempre se pode argumentar que isso é sinal de vida em crise, mas a crise é por conta dessa entrada sorrateira e antecipada das hostes da morte. Às vezes fico pensando que a ostentação da dor diante do marido morto era um pedido silencioso de Marta para que ele respeitasse o território vivo e não se apresentasse a ela como fantasma, mas ele certamente não deu ouvidos. Não sei como ela se comportou diante do caixão que tinha o cadáver do marido, não sei se gritou, se chorou alto, se pediu, como às vezes acontece, para ser enterrada junto. Mas, nesse sentido de ostentação da dor no preto usado nas vestes, nos gestos contidos de viúva, pelo menos no que diz respeito a prolongar o luto, Marta devia ter sido poupada.

 

2 comentários sobre “O crítico 3.9

    • paulopaniago 25/09/2014 / 15:59

      A questão me parece: por que a memória não consegue alcançar este momento? Será que é porque dói e portanto é melhor esquecer, ou porque é inspirador, e talvez por isso seja necessário esquecer?

      Curtido por 1 pessoa

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