O crítico 3.10

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

A vida é um brilho, um raio de luz em meio a densidade da escuridão circundante, e isso a torna ainda mais fascinante. Em sua minúscula e recuada posição, tão ínfima, ela é capaz de provocar, de colocar em xeque a grandiosidade abrasiva da morte, sua absolutidão absurda. Eu sei que esse substantivo não existe, mas deveria, nesse caso é necessário que exista: absolutidão. De modo que é nesse jogo de xadrez implacável e até onde se sabe indefinido que o conflito se estabeleceu. Por ser um soluço, a vida é também um baita problema, olhando agora da dimensão pessoal, que é normalmente a que é dada para cada humano (exceção consistente dos astrônomos, um tanto comprometidos com medidas mais extensas de tempo e espaço, embora suas vidas tenham a mesma duração que a de seus contemporâneos).

O arquétipo da vida, portanto, parte de uma contradição: perto da morte ela é ridícula de pequena, mas diante da perspectiva pessoal de cada indivíduo ela é gigantesca. Os arquétipos menores contidos no conceito de vida são, apenas de modo geral (é sempre possível estabelecer sub-hierarquias em várias camadas): fôlego, fome, sono, consciência, razão, regras, jogo, família, escola, memória, sexo, trabalho, lazer, riso etc. etc. Tudo aquilo que diz respeito a vida, a rigor, poderia ser encarado como arquetípico, a questão é determinar o que de fato é relevante e não há jeito de fazer isso a não ser sendo um tanto arbitrário.

Vou começar com a ideia de fôlego. Bem, a vida de um ser humano se inicia no útero, mas escolhi considerar a vida externa, o momento do nascer, não à toa chamado vir à luz. O sujeito está naquela escuridão protegida e é expelido, ou se expele, o processo parece que é um tanto misterioso. Nesse momento, segundos após ter sido ejetado em direção à luz, é preciso tomar fôlego, puxar uma quantidade de ar e iniciar o processo de respiração por conta própria, não mais por meio do cordão umbilical, mas através dessa camada de ar aparentemente inesgotável em que ele acaba de mergulhar, um líquido muito mais rarefeito do que aquele que tinha à disposição enquanto estava mergulhado no interior da mãe. Não à toa, também, esse tomar ar lembra muito o tal sopro divino ao fazer o primeiro ser humano, de acordo com o mito corrente. Inspiração, expiração, isso marca profundamente o início da vida e a conclusão dela, logo em seguida ou muitas décadas mais tarde. A alma é portanto comparada a esse sopro, esse ganho de ar, esse início de um movimento que demorará a cessar e é contínuo: inspire, expire. De novo e de novo, até o fim. Começa com esse ar que entra, termina com o último ar que sai. Esse ar provoca incômodo, da primeira vez, e chorar é o jeito de dizer que algo está muito estranho nessas síncopes sucessivas que o processo de nascer representa. Tudo manifesto de maneira instintiva, bem entendido.

 

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