O crítico 3.11

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Retirado do processo respiratório confortável a que estava habituado e lançado ao mundo de luz e ar, esse recém-nascido sentirá muito em breve fome. Seu instinto chega a tanto: tem fome e ela precisa ser satisfeita. Chorar é o mecanismo para externar qualquer incômodo, o da fome sobretudo. A fome vai ser uma marca permanente tanto quanto a respiração. A vida será uma espécie de corrida sem fim para saciar a fome a intervalos mais ou menos regulares. Há dias em que se pode fazer jejum, sem dúvida, mas a fome estará lá, ansiosa, prepotente, firme e persistente, toda vez que não for saciada e vai provocar um modelo de escravidão que impede o sujeito de pensar em outra coisa a não ser em saciar aquela ausência tão consistente. Quando o ser humano morrer e for transformado num zumbi, a vida terá lhe escapado mas não a fome, que faz com que todo zumbi erga os braços diante de si e procure carne, alimento. A fome é uma das mais vorazes manifestações da vida. A fome e o sono, que volta com uma constância incrível, que permanece ali, assombrando, retirando a mente da ordem da racionalidade para lançá-la novamente em devaneios de livre expressão. Talvez porque o excesso de racionalidade seja pernicioso de alguma forma, o dispositivo do sono é portanto um jeito de compensar a expansividade do real.

À medida que aprende a controlar o sono e participar mais ativamente da realidade, o bebê ganha consciência, aprende a compreender que ele e a mãe são coisas distintas, aumenta, com o passar dos dias e meses, a compreensão daquele admirável mundo novo que o envolve. Aprende a se mover nele, a usar a mão para brincadeiras e depois para segurar objetos em volta, os brinquedos que as famílias se preocupam em adquirir para este fim. Então ganha linguagem e daí a pouco mergulha, se seu cérebro estiver bem calibrado e os estímulos estiverem chegando de forma intermitente mas mais ou menos constante, nesse universo da língua de seus pais e dos pais de seus pais. A língua, esse ganho simbólico monumental, que fará o pensador norte-americano Charles Pierce declarar que o homem é um animal simbólico, tal é a força com que ele se encontra imerso dentro dessa vasta rede de referências não concretas. Mas também o mais amplo, a linguagem, que não usa somente a língua para se expressar. Essa aplicação de recursos que permite aos humanos comunicarem algumas inquietações, emoções, ou simplesmente travar um diálogo qualquer que seja, apenas dois dedos de prosa jogados para nada mais que estabelecer contato.

Com a língua, uma série de novos ganhos se apresentam. A língua organiza, tem uma sequência correta de palavras para que façam sentido. A criança primeiro aprende a nomear coisas, o nome preciso e único de cada uma. Mas nomear uma coisa é também relacioná-la com outra: os nomes das coisas são diferentes uns dos outros. Logo, passar dessa relação entre as coisas para a relação entre as palavras, a ordem que o sujeito, o verbo e o predicado se dispõem dentro da língua, é questão de um pouco mais de tempo. O que a criança está recebendo são as primeiras dentre as muitas séries de regras que vão nortear sua vida a partir de então. A existência de regras e a ruptura, a rebelião em direção a esse mesmo conjunto de regras é um grande conflito que vai determinar muita coisa na vida de cada pessoa. Você tem propensão a seguir regras ou a romper com elas, parece a pergunta que os pais estabelecem para seus rebentos, que possivelmente terão mesmo os pais (e aqueles outros tantos com quem convivem, vizinhos, amigos, familiares, desconhecidos etc.) para se mirar e perceber como é que vão se relacionar com regras.

 

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