O crítico 3.12

Foto | Vivian Maier
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A regra é um arquétipo importante e forte. Ele determina a régua com a qual o sujeito guiará a existência e ele pode ter dias em que está mais alto ou dias em que está mais baixo, mas dificilmente vai criar uma rebelião em que desista de ter a régua. Se um dia conseguir se livrar da própria régua, será possivelmente para adotar um outro modelo de régua, mas ainda uma medida, uma dimensão, um parâmetro (bem entendido: um conjunto de regras, porque não se trata de apenas uma). O sujeito começa então a perceber que ele não se encontra sozinho, que em volta de si e a cuidar dele está a família, até que ele consiga se virar sozinho, o que deve demorar muitos anos. Isso impede que esse círculo familiar se rompa, porque levou muitos e muitos anos para ser estabelecido. Há quem consiga, sem dúvida, há quem queira, mas a ideia corrente é que a família, com todas as especificidades e maluquices, funcione de qualquer modo como a referência principal. Você não está sozinho, sempre pode recorrer aos pais, aos irmãos, primos, avós, tios, é uma rede grande de ajuda mútua. Em sentido extremo, você é um irmão da humanidade e todos deveriam se sentir responsáveis por todos, embora na prática não seja bem assim e os biólogos desenvolvem teorias para provar que respeita-se melhor aqueles genes que lhe são reconhecíveis, portanto os parentes têm primazia sobre o restante da humanidade, esse primo muito distante. Acontece que o sujeito, que está recebendo réguas para medir o mundo, precisa em algum momento ampliar os horizontes e para isso será enviado primeiro à escola, depois ao casamento (os genes devem prosseguir em sua trajetória de reprodução, os seres humanos são a melhor escola de clonagem pragmática, embora os laboratórios estejam querendo colocar mangas de fora nesse campo) e ao trabalho, a ordem aqui às vezes não é tão importante.

As relações humanas se baseiam no princípio da aliança. É preciso estabelecer regras de convívio e na maior parte dos casos, cumpri-las. Todas essas associações, família, amizades, amor, casamento, negociações, existem com o propósito de fazer o ser humano se esquecer de que no fim das contas está sozinho. A ideia de solidão absoluta é repulsiva e para evitar o convívio direto com ela foram criados subterfúgios. Você pode confiar na sua família, eles estarão lá. Você pode ter respeito, eles talvez sintam orgulho e serão um tanto lenientes quanto as suas falhas, perdoarão equívocos com uma frequência assustadoramente alta ou, no caso das famílias mais restritas, punirão esses mesmos equívocos para que não voltem a ocorrer. Mas sobretudo você está sozinho, por mais que a família negue isso e procure te dizer o contrário. Essa solidão é inegociável. Ela é definidora. Ela tem um componente enorme de absolutidão que faz você usar a régua para se medir a si: a régua dirá o seu verdadeiro tamanho não em comparação com os demais, mas o valor absoluto que você tem de acordo com a sua medida.

A coisa toda, se você pensar bem, é um gerenciamento de distâncias. Quão longe ou perto você está dos seus amigos, da família, da mulher que você ama. Para falar a verdade, no meu caso, eu acho que sempre mantive distância de todo mundo. Meus pais pertencem a outra geração que não pretendo entender, minha irmã fez escolhas que jamais entendi ou aceitei ou assimilei. Meus amigos são ótimas pessoas e em qualquer situação de aperto sei que posso recorrer a eles, mas o fato é que têm as próprias vidas e se eu me mantiver afastado, sei que no fim do dia é cada um por si. Portanto, no ciclo mais fechado está a mulher que você ama, no meu caso Marta Fernandes. Então, quando você acredita que vai se entender profundamente com essa pessoa, quando acha que vocês serão cúmplices e companheiros, sócios no crime e no planejamento das férias, você começa também a perceber que há riscos, rachaduras no desenho, que há letras miúdas no contrato. Invisíveis na hora que você assinou, elas aparecem junto com novas situações. Ninguém deveria entrar num casamento em que há um fantasma, essa é que é a verdade.

 

3 comentários sobre “O crítico 3.12

  1. Cláudia Costa 28/09/2014 / 10:07

    Fiquei me perguntando, como sabemos que há fantasmas no casamento, ou a que tipo de fantasmas você se refere. Excelente ponderação, a sua.

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    • paulopaniago 28/09/2014 / 15:17

      Obrigado, Cláudia. Pois é, os fantasmas estão por aí, geralmente porque é fácil deixar fazer com que atuem em vidas alheias. Importante é arranjar bons escudos.

      Curtido por 1 pessoa

      • Cláudia Costa 29/09/2014 / 12:19

        Paulo!! Sigo precisada de saber que tipo de fantasmas seriam esses. Seu texto acordou em mim essa pergunta que não cala.
        Cansei de escudos…eles pesam! rsrs

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