O crítico 3.14

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

A escola vai ampliar o acatamento das regras, estabelecer novas, ampliar, de outra parte, o grau de convivência do sujeito, torná-lo se possível apto a ser um sujeito social, que aceita regras e sabe compreender os limites de convivência (seu direito termina onde começa o do outro etc.) que estão em andamento quando você está numa sociedade. A escola, as professoras, substitutas das mães, carinhosas, severas, feias, atraentes, didáticas, bruxas, há de tudo e o sorteio daqueles que serão designados para acompanhar sua vida é muitas vezes completamente aleatório e imprevisível. Você pode ter um ano de excelentes professoras, outro de professores crápulas com óculos de tartaruga, outro em que seus talentos são reconhecidos e aquele ano em que todos os professores se esqueceram de reconhecer o que fosse, pareciam em greve mesmo estando em salas de aula. A regra e o jogo estão presentes, mas é a regra quem faz a chamada.

A não ser no caso da memória. A memória sempre mantém um pouco de anarquia no jeito como sistematiza as lembranças, ainda bem. É como se o cérebro soubesse da importância de manter uma reserva para si de aleatório, de fora do padrão, uma vez que no restante do tempo interessa a racionalidade, o ordenamento, os rótulos e rotinas reconhecíveis. A memória tem jeitos de expressar o passado, por meio de imagens mentais que podem não corresponder aos fatos. É como se a memória afetiva tivesse um mecanismo próprio para melhorar o passado, torná-lo mais interessante do que foi. Ter memória é o que permite aos humanos assimilar a noção de passado, porque a memória evoca o tempo todo esses fantasmas em forma de imagem e sons do que aconteceu antes. Vive-se sempre no presente, que é inapreensível, mas também lembra-se do passado e lembrar é o jeito de remeter a vida para trás, para outra época. A fotografia veio reforçar isso: veja como você era há dez, há vinte anos, veja como tudo mudou desde então. O bebê de colo tornou-se um jovem adulto, o velho pode se ver no dia em que casou e seu rosto estampava mais sorrisos do que é capaz hoje em dia. Não esquecer o passado, a memória adverte, é importante para que você não volte a cometer os mesmos erros e se sinta livre para cometer outros, para praticar erros diferentes com desenvoltura. É importante também esquecer, um tanto de informações esquecidas permite que você continue a repetir erros, mas também permite que você enfrente a realidade e que lance parte significativa dos interesses para o futuro.

Sempre a regra, eu dizia, a se imiscuir em todos os valores racionais que passam a nortear a vida. A escola vai te preparar, se você a frequentar o bastante, para se inserir numa das mais veementes ordens da vida, a do trabalho, onde boa parte de suas horas ativas ao longo da vida adulta serão ocupadas de maneira supostamente produtiva. Goste você ou não de trabalho. Uma das principais desculpas para que você acate o peso da ordem sem muito questionamento é te dizerem que você deve escolher algo que te agrade, porque o trabalho nesse caso não será uma experiência tão penosa. É um sistema de auto ilusão que te vendem e que você normalmente acata sem questionar muito. O trabalho vai consumir grande parte das horas da vida adulta, o sujeito viverá para trabalhar, a não ser que ele tenha nascido num outro país em que a ordem social seja diferente. No Brasil, o trabalho é de lei, praticamente. Ou você trabalha muito ou então se dedica a virar ladrão, se bem que os melhores ladrões do país geralmente usam terno e gravata e suam para roubar dos outros, sobretudo se trabalham em bancos, empresas autorizadas pelos governos a roubar dos cidadãos com salvaguarda institucional, portanto sem preocupações de serem coagidas por forças policiais. Uma maravilha. No país segue-se a máxima de Bertolt Brecht: não roube um banco, funde um banco. O lucro é maior e os riscos, muito, mas muito menores. Banqueiros não são vistos algemados, normalmente aparecem recebendo prêmios e congratulações. São pilares da sociedade, o que é uma ironia cínica mas verdadeira.

 

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