O crítico 3.15

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Para compensar a força e o poder estranhamente potente da ordem do trabalho na vida das pessoas, o trabalho que é exercido quase sempre de forma pública, aberta e acessível, há sexo, uma das representações mais intensas de vitalidade. Existe inclusive um anúncio publicitário de uma clínica de tratamento de disfunção erétil em Brasília que diz, de maneira muito apropriada, que sexo é vida. Toda a obra de Philip Roth parece ter sido construída em torno da discussão das alegrias e dissabores decorrentes desse preceito de que sexo é vida. Em O animal agonizante, está dito: “Não é o sexo que é corrupção — é o resto. Sexo não é só atrito e diversão superficial. É também a maneira de nos vingarmos da morte. Não se esqueça da morte jamais. É verdade, também o sexo tem um poder limitado. Eu sei muito bem quais são os limites desse poder. Mas me diga uma coisa: existe poder maior?”. Não à toa, existe essa proximidade estabelecida entre sexo e morte, o máximo de vida diante da potência da morte, o momento em que a briga atinge o ápice do conflito e não se sabe quem pode vencer. Normalmente a vida vence, por enquanto. Num poema de Carlos Drummond de Andrade, ele diz que o amor é primo da morte “e da morte vencedor/por mais que o matem (e matam)/a cada instante de amor”. Eros e Tanatos, deuses do amor (do sexo) e da morte, tão próximos que os franceses denominam o encolhimento pós orgasmo, sobretudo o masculino, de pequena morte. O sexo fornece a dimensão máxima de vitalidade, a intensidade do movimento de estar vivo, e também, em alguns casos, da agonia conflitante que isso representa: por exemplo, nas demoras em se atingir o orgasmo, nos pequenos recursos de que se lança mão para conseguir fazer isso e que pode ser agônico para muita gente. Vida é também definida por uma angústia, permanente ou intermitente, não importa, ela está lá, estará lá em algum momento para te atazanar. Instrumentalizado, o sexo ganhou outra dimensão no mundo contemporâneo e deixou de ser tão complicado e escondido, embora ainda seja mantido, quase sempre, dentro da ordem do privado. Há uma passagem num outro livro de Philip Roth, Mentiras, que sempre me agradou muito. Um sujeito vai confrontar o amante da mulher, e em vez de partirem para a briga física, o sujeito acusa o amante nesses termos: “Outros homens costumam ouvir com toda a paciência, como parte da sedução que acaba levando à trepada. É geralmente por isso que os homens conversam com as mulheres: para levá-las para a cama. Já você leva as mulheres para a cama para poder conversar com elas”. Esse personagem que também é escritor e que usa o sexo como mecanismo para alimentar a literatura é formidável! E que não tem medo de admitir o princípio que norteia a conduta de todos os homens, o exercício da paciência enquanto a sedução não se concretiza, isso é realmente fenomenal. Embora a maioria dos homens vá, por pudor ou gentileza ou espírito de cooperação, negar que seja esse o princípio que pauta as respectivas vidas.

Sexo não é diversão superficial, de acordo. Como efeito colateral, por exemplo, pode-se gerar novas vidas, se precauções não forem adotadas. Mas a verdade é que também se torna necessário manter uma parte da vida reservada para diversões superficiais e indolores. É novamente a entrada da ordem do jogo, convertido agora em momentos programados para que se devote ao lazer. Em família, com amigos, num clube, numa academia, diante de computadores cheios de jogos e diversão, o lazer compensa o investimento implacável que é necessário fazer na ordem do trabalho para que a manutenção da subsistência fique garantida. Embora também seja usado para manifestar raiva ou angústia, geralmente o sexo é usado para chegar mais perto da vida, para que se permita um mergulho na sua intensidade máxima, para que se expresse a vitalidade extrema. Estou vivo e bem, dizem silenciosamente as pessoas engajadas na relação sexual. Muito vivo e muito bem.

 

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