O crítico 3.16

Foto | Vivian Maier
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Para iniciar a vida, a pessoa chorou. Não seria mal se aprendesse, quanto mais próxima do fim (supondo que ele seja natural e em idade avançada, mas adaptações podem ser pensadas e admitidas, até porque não me parece que exista nada de natural em morrer. Ninguém morre de morte natural, isso é uma mentira horrorosa), a rir. É o verdadeiro e para ser sincero quase único recurso para se rebelar contra a vastidão da morte. Rir, no entanto, diante de situações naturalmente cômicas é fácil e natural. O problema maior é conseguir rir quando não se espera, rir na cara da morte, quando ela chegar, essa sim seria a grande demonstração de capacidade de superar limites. Não à toa, grandes romances iniciaram-se e foram marcados por esse traço importante, a propensão ao riso. François Rabelais procurou o riso o tempo todo ao compor Gargântua e Pantagruel. A mesma coisa com Miguel de Cervantes ao escrever Dom Quixote e marcar com propriedade o início realista do romance moderno (novel), separando-o da estória romanesca (romance), na qual o livro de Rabelais fica mais bem localizado. Já comentei essa distinção antes, mas fica de novo o registro. O riso libertador, o riso rebelde. Durante muito tempo na história da humanidade, acreditou-se que o riso não era um atributo divino (Deus é sério demais para rir), mas demoníaco. Fato. O riso é mesmo rebelde, por isso é tão aceito dentro da lógica e da retórica do romance, que sempre quis discutir os limites das regras para, de alguma forma, desrespeitá-las. Por isso mesmo existem graus no riso. Há do mais simples, o sorriso de reconhecimento, a aceitação de um fato banal qualquer, até o riso sardônico, um passo além talvez do sarcasmo, esse riso cheio de amargor e fel, esse riso que estabelece desigualdade, que diminui aquele a quem é dirigido, que o torna um idiota automático. O riso sarcástico é detrator, é pior do que o de escárnio. O riso sarcástico é cáustico, torra a pele ao sol, irrita-a, depois a cauteriza, embora um dos sinônimos de cáustico seja exatamente definir aquilo que expressa sarcasmo (o círculo que se fecha) ou mordacidade. O mordaz é cortante, mas também afiado, ele morde, é um riso de ofensa, tal como a bazófia, mais forte que a jocosidade, me parece. Uma hierarquia do humor teria esse poder potencial de elencar as várias categorias que os seres humanos atribuem ao riso.

Há também um riso decorrente da ironia, ele dispõe que alguém está autorizado a se sentir, mesmo que apenas de maneira momentânea e que não corresponda à verdade, numa posição superior ao outro, a quem as expressões descompassadas da ironia se dirigem. A ironia é uma espécie de mentira explícita da fala: as palavras dizem algo, mas significam o oposto. O sujeito a quem a ironia se dirige pode retesar-se e ficar incomodado, levar a sério a provocação e até se irritar. Mas se tiver senso de humor, a melhor resposta será também ser irônico ou ir além, usar de volta a zombaria, a chacota, até mesmo, mais forte que a ironia e uma boa resposta, à altura, usar o deboche. Creio mesmo que o deboche responde à ironia com a devida sagacidade: você quis se colocar numa posição superior a minha, eis como dou a volta por cima e sou eu quem termina uma posição acima. Porque não sei como seria possível ir além do deboche, esse menosprezo quase completo pela existência do outro, ele é talvez o mais corrosivo dos humores violentos. A não ser talvez que se apele ao cinismo, porque a bazófia não é suficiente, ela é apenas uma manifestação fanfarrona da ordem da burla, uma variante não muito eficaz, se o intuito é machucar com o riso algum oponente. O cinismo é mais poderoso, mas nele talvez o riso já esteja sendo abolido, o riso deixou de ser libertador e desopilante para se transformar numa arma extremamente virulenta e audaz. Talvez o cinismo seja até mesmo mais eficiente do que a sátira, essa verdade banhada de uma ironia ácida e perturbadora.

 

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