O crítico 3.17

Foto | Vivian Maier
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Humor é remédio contra a razão, contra os exageros da razão. Ele desarticula, funciona como banana mental, debocha da realidade ao reorganizá-la numa ordem inesperada. É essa alteração, esse inesperado que tem o poder de fazer o ser humano relaxar a tensão e rir, seja de maneira tímida, seja a todo vapor. O riso melhora a circulação, chacoalha as emoções, redime pesos e culpas, atravessa o tempo e se lança rumo a quaisquer novas gerações. As pessoas riem muito ou pouco de acordo com os sinais do tempo, mas o aprendizado do riso é mais importante do que a transcendência do corpo. Sem riso, nada faz sentido. Ou melhor, também com ele nada faz sentido, mas então o não fazer sentido não é assim tão grande e sisudo, passando a ser até divertido e, por que não?, interessante. Fiz bem em guardar o riso para o fim, essa é a melhor posição para ele, ao fim, como se fosse o diploma que se entrega ao final de uma vida bem sucedida: parabéns, você viveu suficientemente bem para merecer o riso, eis aqui, pode rir à vontade a partir desse ponto. Se as pessoas desaprovarem o seu riso, alegando que não fica bem aos velhos rirem sob pena de serem vistos como malucos, gagás, não ligue, ignore os comentários e continue rindo de maneira destrambelhada, por favor. Ride, ridentes, diz um verso de um poeta russo de nome impronunciável e engraçado. Vamos rir, ele convoca, ao longo de todo o poema, de maneira nada jocosa. É uma convocação séria, marcial, nada descontraída. O modo verbal, o imperativo, é um indício de que algo não vai bem nesse poema. O riso não pode ser decorrência de uma ordem, de convocatórias, o riso deve brotar, se possível, do estado de graça, da transcendência da miséria do real. Aí, sim, ele tem força e consistência e pode ser a grande arma para estabelecer revoluções, a da sensibilidade, por exemplo. Em vez de bater palmas ao fim do concerto ou do balé, o público riria, que beleza, todos rindo muito, a orquestra e os bailarinos inclusive. Rir porque se gosta de algo, rir alto, gargalhar, em vez de bater palmas. Estamos todos felizes, portanto rimos, seria a nova lógica de manifestação pública de reconhecimento.

No meu entender, há um momento em que o riso se encaminha para a seriedade. Talvez seja nesse ponto que o humor negro entra. Ele diz que o riso pode incorporar a ordem da morte, ele subverte a visão que insiste em ver apenas o bem como merecedor de triunfo entre os seres humanos. O humor negro desafia essa visão singela para fazer a aposta na ordem do mal e é nesse sentido que se aproxima da morte, esse mal absoluto contra o qual não se pode dar combate. Os humanos se enganam quanto a isso também, apelam para a noção de que a fama, como queria Homero, era um tipo de prolongamento especial que subverte o poder da morte. Mas, certo, invocamos até hoje o nome de Homero e no entanto ele não faz ideia da repercussão posterior que a fama lhe legou, então qual é o sentido, pensando da perspectiva dele? O humor negro é o melhor dos humores, em que pese o adjetivo ser o mesmo que se usa, normalmente, para se falar dos humores e definir aquele que é o do melancólico, possuidor de bile negra que lhe provoca essa disposição. O humor negro está numa categoria acima de todos os outros risos anteriores, ele já não quer mais simplesmente fazer rir, mas compreender que a vida não tem nada de simples ou agradável e, mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, o que resta é rir. É um riso cheio de sombras, ao mesmo tempo extremamente cheio de poder, tanto que a maioria das pessoas sente um tipo de aversão ao humor negro e flerta com ele apenas de maneira tímida, porque tem medo de abraçar esse grande e grave poder que emana dele, o de harmonia com a morte, de matrimônio não de celebração da vida, mas da morte. Fúlpio cita um ancião que não resiste à leitura dos tratados médicos sobre a morte: ele morre. É terrível para o ancião, mas não deixa de ter uma hilaridade perversa para os vivos.

Todos esses valores arquetípicos, no meu entender, e quantos outros eu poderia criar (como disse, o processo é um tanto arbitrário), estão relacionados com os valores fundamentais da literatura. Só para dar um exemplo. O que atrai a atenção do leitor no Quixote é, de maneira simples, o humor que o livro tem, certo, talvez essa ordem do riso muito bem distribuída entre as peripécias do personagem. Mas o valor arquetípico que motiva realmente a permanência do livro de Cervantes como obra de referência imbatível é que o personagem, Quixote, não abre mão de sonhar. Na vida real, quando as pessoas se deparam com obstáculos para a realização dos próprios sonhos, terminam por ceder ao peso das fraquezas, por acreditarem ser impossível levar adiante esse sonho, que permanecerá sempre como utopia, portanto não realizada. O que atrai em Quixote é que ele é invencível na realização do sonho. Por mais que a realidade lhe jogue no chão, lhe quebre dentes ou costelas, lhe force o tempo todo a ceder, ele persiste. Por isso a morte do personagem ao final é triste. Não porque ele morra, isso é da natureza humana, mas porque volta a abraçar a dimensão incomensurável do real antes de morrer, abdica do sonho, da loucura que foi o sonho de se acreditar cavaleiro andante a salvar donzelas em perigo. É um final extremamente melancólico. Mas talvez fosse a intenção de Cervantes, devolver ao leitor a ordem concreta do mundo sem sonho, para que ele possa dizer e pensar que pelo menos o velho Quixote viveu uma vida de sonhos, antes de entrar para o reino da vastidão da morte. É uma consolação que alguém tenha conseguido. Não seria sensacional se todos tivessem a mesma coragem que Quixote?

 

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