O crítico 4.1

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Eu estava lendo um livro, uma antologia, e me deparei com uma nota de rodapé que cita um poema de Enrique Banchs, escritor argentino de quem nunca tinha ouvido falar, o que só agrava a minha proverbial ignorância. Ele tem um soneto com um verso muito precioso ao desenvolver uma bela imagem de tigre, pois fala dele como sendo “suave como um verso”. E sinuoso, lânguido e perverso, uma espreita contida. Até a surpresa do último verso: o tigre é metáfora para o ódio. Pois bem, chegou o momento de revelar as minhas surpresas, se é que o leitor não as tenha adivinhado, chegou o momento de tirar meu tigre de trás do arbusto para dar o bote.

Marta mudou a disposição por uns tempos. Se eu não conseguia fazer com que ela abandonasse a melancolia por ter perdido Álvaro, um fato que diz respeito a nós dois conseguiu isso. Um dia de manhã ela saiu do banheiro e veio até a sala, que estava bastante iluminada pela luz matutina. Estou grávida, disse, com um sorriso incerto, porque uma coisa era termos conversado hipoteticamente a respeito de filhos. Outra era a realidade batendo à porta com vontade de entrar.

— Você está falando sério? — eu disse, também com um sorriso inseguro. Ela podia ter feito apenas um daqueles testes de farmácia e, sem confirmação, achar que estava grávida porque queria estar grávida. Tinha medo que ela sofresse novas decepções.

— Tenho certeza — sorriu, um pouco mais.

Eu levantei da mesa com um grito de triunfo e bradei um ah bem forte de quem se realiza como ser humano, de quem percebe que dá conta de cumprir a tarefa da existência com louvor. Se bem me lembro, ergui o punho fechado para o ar em sinal de vitória. Não era apenas um sobrevivente sombrio, eu conseguia, com a ajuda daquela mulher, gerar vida. Seria pai, aprenderia o valor do compartilhamento, da proteção, saberia exatamente o que significava a ideia de continuidade, de permanência em meio à precariedade, muita coisa de uma só vez. A sensação de poder, a libertação e o compromisso que aquilo implicava me punham louco. Eu abracei Marta com força e a ergui, para em seguida depositá-la imediatamente no chão. Queria comemorar, mas ao mesmo tempo precisava tratá-la com carinho e cuidado. Nós merecíamos a comemoração, a celebração alucinada de nossa simbiose capaz de gestar vida. Em escala, era a coisa mais trivial do mundo, sete bilhões de pessoas provavam isso, mas para nós era a emoção do inédito, nosso contrato com a humanidade finalmente aceito, o certificado de seres humanos categoria especial sendo expedido e entregue em casa.

 

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