O crítico 4.2

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Cancelei a aula dois dias mais tarde para acompanhar Marta até o obstetra. Conversávamos alegremente e fazíamos planejamentos, onde ele ou ela estudariam, jogamos nomes na mesa como se fosse uma partida de pingue-pongue, o mundo de repente havia perdido toda a trivialidade e parecia um lugar muito importante do universo para se estar e estávamos nele. Comecei a pesquisar aulas de natação para bebês e fiz a matrícula de Marta numa aula de ioga para gestantes para um horário em que eu também poderia estar presente. Depois que voltamos do médico começou uma fase de anunciar aos parentes e amigos, anotar suas reações com cuidado e cautela, ouvir as dicas e observar como as coisas se ajustavam de maneira especial para aquela notícia. Comecei a achar que a iluminação na sala, no dia em que Marta anunciou que estava grávida, vinha dela, porque dava a impressão de que se irradiava dela. Era o tal milagre da vida modificando disposições de maneira extrema e eficaz.

Até que uma noite no fim do segundo mês ela voltou do banheiro e me acordou.

— Estou com um sangramento — me disse, com voz séria.

Eu me levantei imediatamente, disse que iríamos ao hospital, insisti com ela para que ligasse para o doutor Mário Carvalho e comunicasse a ele exatamente o que estava acontecendo, o que ela fez, por celular, a caminho do hospital. Mas ele disse que só mesmo com exames para ter certeza do que estava acontecendo. No hospital, como sempre, demoraram um pouco para nos atender, mesmo com um pouco de escândalo que eu fiz para que as burocracias fossem um pouco mais eficientes. Era a minha parte, brigar contra o mundo para proteger a minha cria, enquanto o esforço de Marta deveria ser para nutri-la e protegê-la dentro do próprio corpo, pelo menos naquele momento. Finalmente trouxeram uma maca e quando a empurraram pelo corredor eu fui com Marta, segurando a sua mão, até que numa daquelas portas de definição de fronteiras, que pretende barrar a entrada de bactérias, vírus e maridos preocupados, me disseram que eu não poderia mais acompanhá-la. Fiquei na companhia pesada da minha preocupação e lamentei não ter cigarros comigo, porque era um bom momento para começar a ser fumante. A espera pareceu muito mais longa do que de fato foi. A notícia que um médico que não era Mário me trouxe não aliviou nem um pouco o peso que a inquietação havia me provocado, cerca de uns quinhentos quilos depositados sobre os meus ombros. Ela tinha tido um aborto espontâneo, aquilo não era tão raro de acontecer e não tinha mais o que se fazer naquele momento. Marta permaneceria sedada, estava sendo encaminhada para um quarto, daí a pouco eu seria informado qual era para poder fazer companhia a ela. O médico falava como se estivesse habituado a dar aquele tipo de notícia todo santo dia e se podia perceber que a preocupação dele era apenas encenada, por baixo estava entediado com o plantão e os muitos atendimentos que teria pela frente naquela mesma noite. Mas um conselho foi útil, ele me advertiu para não dizer naquele momento para minha mulher que iríamos tentar de novo. Primeiro, é preciso processar o luto, depois você aos poucos insere essa ideia e vai ver, dará tudo certo para vocês, ele disse.

 

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