O crítico 4.3

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Eu me dei conta, como se já não soubesse, que aquela perda tinha um componente amplificado no caso de Marta. Ela havia perdido um marido e agora enfrentava a perda de um filho. Confesso que até aquele momento eu pensava mais nas minhas inquietações, embora também estivesse preocupado com a saúde de Marta. O meu foco estava errado e tratei de me esforçar para corrigi-lo. A verdade é que fomos da felicidade extrema à brutalidade cruel da frustação em muito pouco tempo e aquela montanha-russa de emoções não era exatamente fácil de assimilar. Consegui comprar umas flores para ela e quando entrei no quarto abraçando um buquê, ela começou a chorar quando me viu na soleira da porta. Abracei-a, disse palavras de conforto, insisti que iríamos superar aquilo tudo juntos, que éramos uma equipe, que nas adversidades a gente aprendia coisas, destilei uma sucessão insuportável de lugares-comuns porque entendi que era aquilo essencialmente o que poderia ser feito por ela naquele momento e era como ela esperava que eu agisse. Fiz o que estava ao meu alcance, sobretudo me concentrei em tentar aplacar o possível na sensação estranha, nas emoções descontroladas que ela estava enfrentando. Nos dias que se seguiram, ela ficou particularmente silenciosa e respondia de maneira lacônica. Por sorte as famílias e os amigos fizeram um esforço para mostrar a ela que estavam do nosso lado, que nosso contrato com a humanidade permanecia e uma nova chance nos seria dada, quando estivéssemos prontos.

A reconstrução dos laços rompidos é sutil e muito delicada, eu acumulei trabalho e também tinha silêncios prolongados. A concentração de todas as inquietudes em situações trágicas recai muito sobre a mulher, os homens somos pouco treinados para lidar com as próprias emoções, nossa educação é muito simples: aprendemos a varrer tudo para debaixo do tapete, como se as emoções fossem o lixo que não queremos mostrar, mas que também não podem sair da sala. Alguma coisa muito perniciosa, eu podia perceber, estava fermentando dentro de mim, mas não sabia muito bem como lidar com ela.

Houve uma época da minha vida, eu gostava de pensar, em que as esperanças se alimentavam de ar e cresciam, mesmo que o dia se encaminhasse inapelavelmente para o fim. Alguma coisa iria acontecer de bom, um beijo quente, eu ia desenvolver a partir do nada a capacidade de voar pelos céus e deixar todo mundo chocado, estarrecido e simplesmente com uma inveja danada. Alguma coisa sempre era passível de aparecer para salvar o dia, para inserir o componente do extraordinário no cotidiano. A qualquer momento, a ordem do sonho invadiria a ordem do real e eu não estava preocupado que houvesse qualquer incompatibilidade formal entre elas. Na televisão isso já acontecia. Godzilla naquele ritmo de lagarto com pressa de tocar o terror aparecia do oceano para assustar aqueles insetos humanos com rugidos irritados e esmagava com as patas gigantescas cidades de papelão e o mais divertido eram aqueles cenários tão toscamente destruídos por um bicho de borracha pequeno; King Kong pegava a moça com delicadeza e subia com brutalidade pela lateral daquele prédio da cidade grande e, como todo brutamontes que se preze, não dava a ela a oportunidade da recusa, o amor deve era suficiente para ambos, parecia ser o recado; o Coiote levava sempre a pior e terminava caindo no abismo pela milésima vigésima terceira vez, geralmente para ainda ser agredido pela queda de uma bigorna e era divertido e irônico ver a cena se congelar no início do desenho para mostrar os nomes científicos dos dois animais envolvidos, como se o desenho fosse na verdade um documentário sério a respeito do mundo animal.

 

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