O crítico 4.4

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

O extraordinário só precisava sair da televisão e chegar ali também, nos parques de diversão reais da minha infância, onde eu e meus amigos fingíamos ser Godzilla e King Kong, o Fantasma, Brucutu, Mandrake. Depois a esperança não se cumpre e não se cumpre de novo e você aprende a conviver com as pequenas frustações, que vão crescendo. O fantástico só existe na televisão e no jeito como você imagina que as coisas poderiam ser se você começasse a voar e surpreendesse todo mundo, mas isso não vai acontecer de jeito algum. A esperança se transforma em outras coisas, ao ser sistematicamente submetida à ordem um tanto chocha mas absoluta da realidade. A imaginação é para ser usada com parcimônia cada vez maior sempre que você percebe que a realidade é limitada, então ela fica restrita à televisão, ao cinema que exibe 007, à literatura que não se sente confortável com limites. Assim, um dia o sujeito pode acordar transformado em inseto sobre a própria cama. Ou começa a conversar com os fantasmas que o visitam. Até o dia em que essa ordem do fantástico que ele havia mantido como reserva técnica para ser usado em televisão, cinema ou literatura, entra na realidade de maneira que parece que o problema não é de sua saúde mental, mas das falhas de estrutura da própria realidade, que permite essas brechas por onde o fantástico se sente à vontade para tomar conta. Foi aí que comecei a ver fantasmas.

No Gráfico do Matrimônio, o começo é sempre no alto e, à medida que avança, dificilmente a barra se mantém na subida: geralmente ela despenca, mesmo quando apresenta oscilações e momentos de alta (a viagem de férias, os períodos exatamente posteriores aos aumentos de salário ou recebimento de heranças). Se as finanças públicas fossem obrigadas a seguir o gráfico do casamento, nenhum país teria inflação, quase todos seriam especialistas no contrário, em deflação. A durabilidade do casamento se relaciona com cansaço e as partes se acomodam, não com amor, não com compreensão mútua. As pessoas desistem de si mesmas e por isso preferem permanecer casadas. Ou aquilo era eu filtrando da melhor forma possível a minha bile. Três casamentos fracassados me faziam, é óbvio, questionar a habilidade que me faltava para lidar com outros seres humanos. Minha solidão, eu pensava, meus elogios à solidão traíam um tipo de misantropia empedernida que me situava como pertencente aquele lado dos seres humanos estranhos, justamente porque não conseguiram desenvolver aptidões sociais. Eu tinha uma teoria também quanto a isso, no fim das contas. Toda experiência do sujeito em relação à própria vida é necessariamente solitária. Ele pode viver coletivamente, comportar-se coletivamente, fazer tudo em conjunto, mas no fundo, quando vê, está sempre voltando ao limite de si mesmo que é sua condição essencial. Morre-se sozinho, adoece-se sozinho, alguém pode até cuidar de você, mas a sensação da doença é inteira e completamente sua. A vida tende mais para a solidão do que para o coletivo e não importa os esforços que você faz rumo a viver uma vida no meio da multidão, isso é apenas o disfarce e a negação do que você é de fato na essência: um solitário que vive emaranhado em outras pessoas.

Eu querer filhos com Marta, por exemplo, e nossa tentativa de ter filhos. Os filhos não são o que definem a minha vida, ninguém é descrito como o pai do ano no quesito o que você fez de melhor na vida. Fulano foi médico, escritor, advogado, e também foi pai, teve família, deixou legado. O que chancela é a profissão, a ordem do trabalho é um dos arquétipos mais fortes da vida e ocupará boa parte dela. O sujeito pode ter sido várias outras coisas, mas será conhecido por esse cartão social que o rotula, a profissão. Culpa do capitalismo, dirão, e sem estarem de todo errados, a questão é compreender por que a humanidade se deixou conduzir pelo capitalismo em direção a transformar o trabalho num dos principais arquétipos. Claro, o capital precisa dessa mais-valia para continuar com seu objetivo de acumulação de lucros nas mãos de uns poucos. Nada disso envolve felicidade, bem-estar, relações saudáveis. Mas a escolha foi de quem? Como foi que a condução se deu até que vários povos de múltiplos países transformassem a experiência de estarem vivos na experiência de trabalhar muito, durante décadas de suas vidas adultas? Quando escuto analistas econômicos dizendo como você deve fazer para multiplicar o seu dinheiro, não consigo deixar de pensar que ele é apenas um idiota a serviço do capitalismo, porque afinal também se beneficia dele por estar numa posição confortável da qual não pretende sair, portanto se presta a fazer essa propaganda do que julga ser o certo e só na minha cabeça distorcida é que ele desempenha o papel ridículo a que se prestou. A que necessidade íntima e incontornável se responde quando se adota o trabalho como o grande valor de condução para a vida? Essa foi a eficiência do capitalismo, convencer a todos que o trabalho é o grande valor vital. Não adianta Marx explicar o quão pernicioso o capital é, se ele não entendeu que o sistema responde a uma necessidade arquetípica do homem, ele precisa encontrar algo com que se ocupar para se distrair de pensar na morte e viver para trabalhar responde a isso com uma eficiência implacável, além de ser desigual e injusto, portanto muito parecido com o que está acontecendo na natureza em volta. Trabalha-se porque assim é possível tirar férias, trabalha-se porque assim é possível enviar os filhos para boas escolas, trabalha-se para se ter um teto sobre a cabeça e para poder comprar um carro e também para que se compre o trecho de terra onde seu corpo estará se esfarinhando em pó depois da morte. O trabalho define o homem, os valores familiares são apenas para convencê-lo melhor de que precisa se submeter à ordem do trabalho ao longo da vida adulta. Mas funciona como reforço mútuo. Você gosta da sua família? Faça um seguro para ela. Você gosta da sua família? Trabalhe por ela, sustente-a, leve a vida ao lado dela e defenda os valores que agradam a ela. O feminismo nada mais é do que a necessidade de o capitalismo convencer as mulheres de que também elas precisam entrar no mercado de trabalho e serem submetidas à exploração. Vão gastar muito tempo brigando para se convencerem umas às outras de que não podem ficar à mercê dos homens, depois vão brigar publicamente para convencer a todos que não podem mais ficar em casa cuidando dos filhos e da casa, devem ir para o trabalho. Ainda vão passar muitos anos lutando para terem salários justos, ganharem tanto quanto ganham os homens, antes de conseguirem perceber que todas essas etapas da luta eram para esconder a verdade: sua emancipação de uma etapa anterior foi apenas para abraçar uma servidão maior, a do trabalho como organizador da vida. Claro, você ama a família, os amigos, os filhos, pode fazer isso à vontade, publicar fotos de vocês nas reuniões e nas viagens de férias, tudo muito lindo, mas ouse dizer para alguém que você se recusa a fazer parte da ordem do trabalho e você verá como será tratado como inútil, traste, à-toa, zé-ninguém, irresponsável que não incorporou os valores que a sua família se esforçou tanto para inculcar em você. Inadmissível a um ponto que nem você consegue se imaginar tendo essa conversa com alguém. Mas toda essa digressão quando o que eu queria falar era outra coisa, a respeito de filhos com Marta.

 

2 comentários sobre “O crítico 4.4

  1. patbilmend 06/10/2014 / 10:52

    Muito intenso e verdadeiro esse texto! E os filhos com Marta ficam para uma próxima vez…
    Ah, as fotos de Vivian são fantásticas!

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    • paulopaniago 06/10/2014 / 15:40

      Obrigado pelo elogio ao texto. E não posso concordar mais com você em relação às fotos da Vivian Maier.

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