O crítico 4.6

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Depois que Marta saiu do hospital atravessei um período no qual trabalhei muito, o livro ficou pronto e no tamanho que julguei o mais adequado, porque consegui imprimir os cortes que ele necessitava antes de enviar para um editor. Não tive, milagrosamente, qualquer dificuldade para ter um aceite de uma importante editora nacional, a minha predileta, para ser sincero. O único problema foi o título, que o editor insistiu em modificar alegando apelos comerciais e quando afinal de contas cedi o problema deixou de existir, pelo menos num primeiro momento. A felicidade naquele campo nem de longe compensava a tristeza no outro, mas era uma espécie de restituição, sem dúvida, um troco besta. Eu tinha a impressão de que comecei a mancar quando caminhava, mas aquilo era tolice, continuei a caminhar do mesmo jeito de sempre. Eu era um manco mental, com a sensação de ter envelhecido vinte anos de uma vez. Às vezes ligava a televisão na minha sala dentro do departamento de letras para ouvir algum tipo de ruído. Velhos desenhos eram exibidos, Tom perseguia Jerry, os Jetsons resolviam seus problemas cotidianos no futuro, de vez em quando até mesmo o Coiote aparecia e ele continuava em sua perseguição inútil ao papa-léguas. Não prestava atenção aos velhos desenhos e sequer registrei na memória os temas e os personagens dos novos. A esperança que eu sentia na infância tinha sumido, a capacidade de imaginar que o mundo um dia poderia revelar uma faceta escondida na qual a vida tinha características de desenhos animados ou dos personagens das histórias em quadrinhos. O mundo era cinzento e cruel, o sensacional e o fantástico tinham fugido para outra galáxia, ninguém saía voando pelos ares e deixando as outras pessoas de queixo caído. Os quadrinhos e desenhos se concentram nos heróis porque na vida real são os vilões que estão vencendo. Era apenas para compensar.

Uma rachadura havia se anunciado na minha relação com Marta e se não a contivéssemos a tempo, ela iria crescer até um desmoronamento definitivo. Eduardo me dizia isso, como podia, naquelas nossas conversas. Tentava me alertar, me advertir, distribuía conselhos. Até Isabel um dia me procurou para conversar, quando deve ter percebido que o marido não estava sendo eficiente, por conta dos relatórios orais indignos que ele apresentava em casa, depois que voltava dos encontros de aconselhamento que tinha tido comigo. É impressionante como as mulheres entendem as nuances, os graus distintos de sutileza envolvidos nas emoções humanas. Discorrem a respeito do assunto com propriedade invejável. Ótima conselheira, Isabel. Mas era com Eduardo que eu me encontrava para encher a cara e mesmo que ele se recusasse, sabia que era mais importante se embriagar comigo do que deixar que eu bebesse sozinho. A linha geral dos discursos que me eram entregues pelos amigos era de que eu deveria manter a sobriedade e apoiar Marta. E portanto, respirei fundo e tratei de engolir meu orgulho e dar atenção a ela.

Entretanto, não conseguia manter o ritmo de cuidados e atenção para com Marta, preferia me concentrar em trabalho, na solidão, como se estivesse em treinamento para minha condição futura. Eu me ressentia da minha incapacidade de escolher uma mulher que me desse filhos. Enquanto a editora preparava os originais, voltei minha atenção para um curso que pretendia ministrar, a respeito justamente de fantasmas. Iria estudar o assunto, analisar o que a literatura compreendia a respeito dele, torná-lo para mim mais assimilável. A ideia era descrever como os fantasmas haviam mudado de acordo com o passar do tempo. Os fantasmas aparições medonhas, na literatura antiga, e os fantasmas no interior das cabeças cheias de neuroses, na literatura contemporânea. Como foi que os fantasmas passaram de elementos externos e visíveis para seres internalizados em mentes perturbadas. Reli a parte do livro de Philip Roth em que Mickey Sabbath sai da Nova Inglaterra para começar uma viagem rumo a Nova York, sob pretexto de ir ao funeral de um antigo produtor. Ele pensa na mãe, na voz da mãe, nessa mãe que começa a oscilar invisível dentro do carro até virar algo interno: “Não estava ela regularmente ao seu lado, na sua boca, zumbindo no interior do seu crânio, insistindo para que desse cabo da sua vida destrambelhada?”. A sedução do fantasma que te acena do abismo é um tema muito forte e eu tinha muito o que estudar e escrever. Evidente que, ao me concentrar nesse assunto e no trabalho, comecei de novo a deixar Marta sozinha, ou talvez na companhia de Álvaro.

 

5 comentários sobre “O crítico 4.6

  1. Ingrid Camargo 08/10/2014 / 14:28

    Foi o primeiro texto da sua série “O crítico” e certamente me apaixonei e lerei os outros assiduamente.

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    • paulopaniago 08/10/2014 / 17:55

      Trata-se de uma novela, Ingrid. Seria bacana, se você tiver interesse, claro, se pudesse ler na ordem, começando lá do primeiro. A publicação terminará segunda-feira que vem, na divisão 4.11, e aí volto a publicar as micronarrativas.

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