O crítico 4.7

 

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Gérard de Nerval fala no sol negro da melancolia e a metáfora é envolvente, define bem a disposição do melancólico: um estado de torpor, de ausência de vontade, mas ao mesmo tempo que aquilo é cauterizante para o coração, é crepitante feito o sol. Tome-se Hamlet, por exemplo, o personagem da peça de William Shakespeare. Ele tem essa disposição para refletir, para a inação, para monólogos em que questiona a si mesmo e ao mundo em volta. Depois, ele se atira com vigor renovado sobre os adversários, desmascara o tio usurpador e assassino e age, torna-se esse sol ardente que se consome nas próprias sombras do torpor. A melancolia reage à expansão da vida, à vitalidade e à determinação tão comuns em povos de cultura protestante e pragmática. É como se a cultura fosse avessa ao poder da melancolia e a rechaçasse com um peteleco. Marta parecia embebida profundamente naquele líquido pernicioso e estava se afogando, não vi isso, ela se afogava e não conseguia pedir ajuda. Preocupado primeiro comigo mesmo, egoísta que sou, depois com a literatura, que me ocupava a mente com outras coisas para que não pensasse a respeito da vida, sempre a me pedir um tipo de atenção que agora, cada vez mais, eu via que não tinha capacidade de entregar, não percebi os movimentos que Marta andava fazendo.

Então é óbvio, vendo do ponto de vista atual, que todos os sinais estavam lá, naquele modo de vida que tínhamos escolhido viver. Eu era incapaz de compreender e aceitar o destino que estava reservado para mim, de pai sem filhos, e não sei mesmo se por dentro eu culpava a mim pelas escolhas equivocadas que havia feito em relação às mulheres, se algum motor arquetípico e inconsciente me forçava na direção do fracasso e do naufrágio de maneira sistemática e como se eu estivesse determinado a me sabotar como pai, ou se tudo não passava disso mesmo, coincidências desafortunadas. Novamente a culpa, eu percebi, estava minando meu relacionamento com o mundo, com as pessoas. A culpa das mulheres, que não engravidavam, a minha culpa, por tê-las escolhido. Eu bebia, eu deixei Marta sozinha, eu não sabia como enfrentar com o mínimo de dignidade necessária um evento trepidante e nada confortável que um ser humano comum enfrenta, não gosta, ninguém gosta disso, mas enfrenta e supera. Eu não sou do tipo que supera. Sou do tipo que remói, que anda em círculos, que não avança. É difícil admitir isso, mas talvez também seja o primeiro passo para superar a questão, admitir que tenho um problema. Olá, meu nome é Roberto Leme e eu sou um sujeito que se ressente. Depois que todos me cumprimentam, olááá, Roberto, então posso começar a dar o meu depoimento pela milésima vez, porque é isso que fazemos nessa reunião, repetimos exaustivamente o nosso relato de como foi que adquirimos o problema e como ele nos impede de caminhar em outras direções. Gostamos do modo como o problema nos envolve completamente e prende a nossa atenção, de modo que não conseguimos pensar em mais nada, não é isso?

Comecei a compreender porque estudava os arquétipos, o que de fato estava buscando neles: um reconhecimento para os valores fixos e imutáveis que teleguiavam a minha vida inteira. Eu precisava talvez superar os arquétipos, me livrar deles. Os arquétipos estavam me travando o pensamento e as emoções, me mantendo no círculo fechado de uma vida que é movimento e trepidação aliada a fortes impactos. Se possível, precisava largar a literatura e me dedicar a viver. Porque a fixidez dos arquétipos te impede exatamente de se emocionar com a vida, eles funcionam como marcas rígidas que determinam valores absolutos e imutáveis. Eu queria mudar, estava me preparando para isso há muito tempo naquelas reuniões imaginárias em que só eu tinha direito à palavra. Por isso sentia tanto desespero quando era preciso comparecer a alguma das reuniões de colegiado, reais, e ouvir os professores sempre a repetir as mesmas queixas, as mesmas reclamações, os problemas redundantes, reiterados à exaustão. Será que eles não conseguiam perceber como suas vidas eram a encenação do mesmo texto? Meus colegas me exasperavam, eu me via numa armadilha de déjà-vu que não tinha saída nem escapatória, nem Houdini se livraria dessa. Cheguei a imaginar a adoção de um comportamento de louco que pede a palavra para falar coisas as mais disparatadas, talvez isso gerasse um mal estar tão grande que me pediriam para não mais estar presente nas próximas reuniões, uma vez que não teriam elementos suficientes para provar a minha loucura, por exemplo em sala de aula ou em qualquer outra situação, de modo que não seria possível pedir minha exoneração do cargo. Mas me faltava a coragem para dar início a esse plano tão ousado.

Minha vida tinha se transformado num grande pesadelo de repetição de situações. Eu estaria condenado a me casar mais umas cinco vezes com a mesma mulher, Clara, Telma, Marta, os nomes variavam, mas no fundo não o modelo fundamental. Eu queria uma mulher que não reproduzisse, que não me desse filhos. Para que eu pudesse me lamentar e depois dar fim ao casamento, então novamente procurar outra mulher, com o mesmo pretexto, num ciclo infindável. Por mais que eu tentasse me convencer, na parte consciente, de que desejava filhos, que dissesse isso aos amigos e falasse de como seria bom ter uma família em torno da qual a vida iria crescer, havia uma falta essencial na outra parte, na maior, na do inconsciente, que me impedia de buscar a reprodução e portanto me lançava à caça de mulheres que teriam algum tipo de problema, emocional ou físico, para engravidar. Talvez motivado pelos medos primitivos que todo humano tem, mas no meu caso parecia haver uma obsessão cuidadosamente elaborada, exercendo um poder mais forte de criar obstáculos ao desejo externado.

 

2 comentários sobre “O crítico 4.7

    • paulopaniago 10/10/2014 / 9:11

      Que beleza “ouvir” isso, Karla, fico muito contente. Espero que você continue a gostar quando a novela chegar ao fim e as micronarrativas voltarem, a partir de semana que vem.

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