O crítico 4.8

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Então um dia eu saí de uma reunião de colegiado particularmente tediosa, embora todas as anteriores também tivessem sido especialmente terríveis a sua maneira, e com o semblante melancólico de quem se vê condenado a ser uma farsa sisífica, peguei o carro para voltar para casa. Talvez tivesse tempo de anotar algumas coisas para um ensaio que vinha escrevendo, a respeito do papel do crítico, que eu supunha que pudesse causar algum barulho, porque viria na esteira do reconhecimento que O segredo dos arquétipos tinha angariado, e imaginei que escrever me distrairia da tristeza de ser obrigado a frequentar reuniões como aquelas.

Ao entrar em casa percebi, não sei exatamente por quê, mas suponho que de algum modo é sempre a minha expectativa ao entrar em casa, esperar que alguma tragédia esteja se desenrolando lá dentro e vai adorar a minha chegada, percebi que algo não ia bem. Havia um silêncio, mas notei que a bolsa de Marta estava largada, aberta, sobre o sofá, com alguns itens espalhados em volta, como se ela estivesse à procura de algo que não encontrou e depois não se deu o trabalho de devolver os demais objetos para as profundidades da bolsa, sempre grande, que ela carregava como se fosse migrar para muito longe. “Meu bem?”, falei para dentro da casa, em parte para anunciar a minha chegada e não assustá-la. Aquele não era um horário convencional para ela estar em casa. Devia ter acontecido alguma coisa. Estaria passando mal? Fui até o quarto, ela não estava. Então bati na porta do banheiro, de onde podia ouvir o barulho do chuveiro. “Está tudo bem aí, meu bem?”, disse e virei o ouvido na direção da porta para ouvir melhor a resposta. Mas ela não disse nada. “Posso entrar?”, acrescentei, mas novamente ela não me respondeu. A preocupação me invadiu. E se ela tivesse passado mal e estivesse inconsciente, pensei. Girei a maçaneta, estava aberta. Empurrei a porta e então a vi, sentada no chão do box, a cabeça inclinada para a frente, os cabelos escorrendo, o corpo excessivamente branco, os pulsos abertos, um último filete de sangue que jorrava dali em direção ao ralo.

Não sei em que momento gritei ou mesmo se gritei. Não sei em que ordem as coisas se deram, hoje não sei. Mas no dia pareceu que mantive a firmeza necessária para adotar as providências importantes, desligar a água, verificar como ela estava, sentir o frio excessivo do corpo de Marta, ou não mais dela. Conversei o tempo todo, porque o corpo tinha ficado, mas talvez o fantasma de Marta estivesse ainda no banheiro e fosse capaz de me ouvir, pedi a ela coisas absurdas e impossíveis, queria que permanecesse comigo, que não fizesse aquilo, que voltasse atrás na decisão. Depois a ligação para a ambulância, a volta até o banheiro, cobrir o corpo dela de alguma forma, por pudor, por proteção, sabendo que tudo era inútil, que a ambulância que chegaria não seria capaz de trazer qualquer pessoa capaz de fazer com que voltasse à vida, Marta tinha partido, ela tinha sido capaz de fazer a mais alta traição a um marido vivo e abraçado a ideia de se juntar ao outro marido, o morto, que esperava por ela, que talvez tivesse sido o responsável por seduzi-la. Então comecei a uivar, o choro mais desesperado que um sujeito é capaz de fazer. Chorei por ela, por mim, por tudo o que viria a seguir a partir daquele gesto extremo, chorei porque sabia que nos próximos dias eu não seria capaz de botar para fora, de chorar de novo, de dizer coisas. Eu, que sempre que abria a boca tinha falado muito, passei as próximas semanas num mutismo consistente, não queria abrir a boca nem mesmo para me alimentar. Não me lembro quem foi que abriu a porta para a entrada dos enfermeiros, não me lembro direito de como conseguiram me separar dela, não sei se a polícia fez um inquérito e quem teria respondido, não sei se houve investigação.

 

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