O crítico 4.9

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Não vou me deter aqui nos rituais que se seguiram, organizados por meus amigos, porque eu estava naquilo que os médicos qualificam como estado de choque quando não sabem o que dizer com precisão o que está acontecendo. Não fui ao enterro, não sei nem mesmo como estava o caixão, se houve caixão, de que madeira foi ou quem pagou, se e quantos amigos compareceram. Me parece que a família de Marta veio de Belo Horizonte, mas não me recordo com exatidão também disso, talvez alguém tenha se hospedado lá em casa. Nos próximos dias, minha mente divagou, não sei se dormia acordado, se dormi o tempo todo, se fui sedado ou se ministraram calmantes. É tudo muito distante e sobretudo muito difícil de localizar. Alguém deve ter apertado o botão que dá pausa na racionalidade, ela entrou num estado de suspensão que deve ter durado vários dias, Eduardo me diz que durou semanas. Mas não esclareci com ele o que de fato aconteceu comigo nesse período, não tenho coragem de fazer perguntas, talvez porque não esteja mesmo interessado ou não dê conta de remoer o assunto, justo eu, o rei do ressentimento.

Ele e Isabel insistem comigo que devo procurar terapia o mais rápido possível. Quando voltei a mim, percebi que Eduardo e Isabel não estão num bom momento, ambos também mergulhados em tristeza, Isabel sobretudo parece ter perdido peso. Pensei isso, “Isabel está mais magra”, um dia, e notei que minha consciência estava anunciando que iria voltar, o estado de suspensão ia ceder terreno para o retorno do real. Pensei que ela estava mais magra e então me vi no espelho e tomei um susto. Aquele estranho que estava me olhando de volta era uma versão muito diferente de mim mesmo, várias vezes mais magro, parecia um fantasma vivo do que um dia tinha sido, os olhos fundos que preparavam o fantasma que um dia eu seria, mas que começou a me assustar naquele mesmo instante. Minhas roupas deslizavam para baixo, no caso das calças, ou dançavam em volta do meu torso, no caso das camisas, como se tivessem sido compradas originalmente para outra pessoa. Pensei, o que é isso que eu virei? A minha vontade era deixar tudo reprimido, não pensar mais no assunto, tentar de alguma forma retomar a minha vida. Mas obviamente era a decisão mais equivocada e meus amigos estavam insistindo para que eu não entrasse por aquele caminho. Eduardo marcou consulta para mim, eu veria primeiro um psiquiatra, que poderia me recomendar medicamentos num primeiro momento e, à medida que fosse capaz de retomar a minha vida, os medicamentos poderiam ser suspensos aos poucos e o tratamento então poderia mudar para um psicólogo. Química resolveria a primeira parte, a da sustentação do corpo. Depois entrariam as questões simbólicas e uma reprogramação mental, caso eu estivesse preparado para lidar com a dor. Os lutos são diferentes nas circunstâncias das mortes distintas. Se um velho pai ou tio morrem, você lamenta, sofre, se veste de acordo, lastima, chora, mas se tem certa idade, entende que aquele é o ritmo normal da vida, que morrer é parte do processo de estar vivo e, por mais lamentável que seja, é também inevitável que ocorra. O luto, que Freud disse que está relacionado de alguma forma com o temor que se tem de imaginar o corpo da pessoa querida se decompondo e sendo agredido por vermes, é uma tristeza infinita que, a certo momento, vai te lançar de novo de volta à ciranda movimentada da vida. Não se pode marcar passo por tempo indeterminado no lado negro das lástimas pelo morto. A vida prossegue sua roda implacável e você deve retomar esse movimento antes que seja tarde, antes que sua hora também se anuncie. A morte te empurra de novo para a vida, ressalta-a, enfatiza como ela é interessante e tem um apelo contundente, justamente por conta de ser tão efêmera. Sua vida vai acabar aqui, a morte estabelece o limite, quando inicia sua vastidão, portanto aproveite enquanto não vem para cá. E você se vê compelido a viver, a viver em dobro, a viver com intensidade.

 

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