O crítico 4.10

Foto | Vivian Maier
Foto | Vivian Maier

 

 

Não é o caso de voltar à vida com essa veemência quando você tem alguém próximo que em vez de uma morte, por assim dizer, natural, faz a opção de se voluntariar, como foi o caso de Marta. Nesse caso o trauma é outro, a ruptura é diferente, estranha, muito peculiar, porque obviamente existe a necessidade de se pensar no real valor que a vida tem. Se alguém se retira dela, é porque ela não é assim tão boa ou potente como se imagina. Havia no ato de Marta uma escolha de exercitar o máximo de liberdade possível: livrar-se da vida. Ela devia estar pesando muito a questão, ao longo daquelas semanas em que a deixei na companhia de Álvaro. Para mim, evidentemente, restava a culpa de não ter compreendido isso, talvez evitado, porque o meu papel seria o de intervir para evitar. Eu sabia que toda a terapia, psiquiatria primeiro, depois a psicologia, iriam enfatizar exatamente essas questões de culpa. Mas acontece que não era culpa o que me corroía, de jeito nenhum. Eu não tinha entrado naquele labirinto sem saída que era lastimar por não ter escutado Marta, por não ter voltado mais cedo da maldita reunião (maldita em si, não por ter sido um empecilho que me impediu de voltar mais cedo para casa naquele dia), por não ter intervindo e segurado Marta. Eu talvez conversasse com ela e aceitasse a decisão, caso ela tivesse me comunicado. Eu talvez tivesse ajudado Marta, se ela tivesse me pedido. Minhas reações no momento em que a encontrei parecem desmentir isso, mas não é verdade que eu teria me recusado, caso ela tivesse partilhado comigo as ideias a respeito da decisão tomada e assumida como irrevogável. Nesse segundo quadro de luto, acontece um fenômeno interessante.

Em vez de ser empurrado pela morte de volta à vida, com vigor, o sujeito pode se ver atraído para ela, seduzido pelo seu apelo de absoluta calma, de resolução de todos os conflitos e problemas. A atitude de Marta me dava ideias, me sugeria possibilidades que já haviam rondado meus pensamentos muito tempo antes e que agora voltavam para novamente se apresentar. Por que não? A pergunta de um milhão cuja resposta precisa considerar a boçalidade e a estupidez que é estar vivo, sem desconsiderar que a vida exerce um apelo incrível sobre cada ser humano, a vida pulsando nele como se fosse uma pequena explosão atômica contínua. Morrer é quase tão absurdo quanto permanecer vivo. Sei que existe essa programação em meu corpo para a perpetuidade, para continuar vivo, é isso que o corpo humano deseja, prosseguir, se possível indefinidamente. Mas também havia o outro lado, a ideia de sossego permanente, o mergulho na tranquilidade que não pensar implicava. No período que passei em choque, a rotação das minhas ideias de alguma forma prosseguia, as inquietações e angústias estavam todas lá, ruminantes, persistentes. A ideia de Marta, a ação de Marta era combater de uma vez por todas, dar fim ao movimento. Por que não? Algo, essa flor negra do país das sombras, se apresentava com promessas de cessar tudo, todos os conflitos definitivamente resolvidos. Adorável. Muito tentador, sem dúvida. E em momentos como aquele, parecia ainda mais sugestivo. Marta havia abraçado a causa, sugerido a ideia, bastava segui-la. Embora o corpo humano, o meu, palpitasse em outra vibração, ainda querendo prosseguir nos movimentos, nas coisas ruins e também na possibilidade das boas, na frequência irregular que a vida proporciona. Eu estava claramente dividido. Marta podia se orgulhar de mim.

 

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