Engrenagens

cafeteira

 

 

Um homem lê um livro, sentado à mesa da cafeteria, que tem ao lado um parque infantil cujo objetivo é atrair a clientela que tem filhos. O livro é Matteo perdeu o emprego, esse estranho relato de Gonçalo M. Tavares. Pela janela, o homem percebe que num jardim localizado dentro da cafeteria, na área externa onde fica o parque, um outro homem trabalha. Agachado, sua tarefa é recolher pequenas pedras brancas e encher uma espécie de balde quadro, amarelo e com rodinhas. Branco sobre amarelo. O homem tem um boné que também é amarelo, a camisa em preto e branco de um time de futebol, jeans e bota de cano curto e sola emborrachada. Ele já recolheu metade da área, um desenho em diagonal. Junta um punhado de pedras na mão, seixos, e as joga no balde, fazendo com isso um barulho de pedra contra plástico, seco e curto. Não se sabe o que estará no lugar, quando todas as pedras forem recolhidas. Não se sabe para aonde serão levadas, se enfeitarão outro jardim e qual. A brancura das pequenas pedras é algo muito peculiar. Enquanto lê o livro, o homem às vezes se interrompe e observa o outro a trabalhar. Inquieta-lhe que esteja ali, a fazer uma atividade prazerosa e agradável enquanto do outro lado do vidro aquele sujeito trabalha, mas o mundo é desigual e injusto e se fosse levar essa preocupação a extremos, é possível que o homem jamais se dedicaria a ler, e no entanto é justamente isso o que ele faz. Então pensa que o homem que recolhe os seixos na verdade pretende usá-los para entrar em algum tipo de labirinto. Usará os seixos para deixar o caminho atrás de si e, ao contrário do que acontece na fábula em que as crianças usam migalhas de pão, não terá o material subtraído. É a esperança do homem, não se perder. Mas a questão se torna outra: onde encontrar um labirinto no qual possa usar as pedras brancas.

 

4 comentários sobre “Engrenagens

  1. thais 14/10/2014 / 10:31

    Gosto muito de “O crítico”. Fico feliz pela publicação da novela ter chegado ao fim, pois finalmente será possível ler tudo em sequência e acho que essa leitura favorece a força do enredo. A publicação seriada, no entanto, valorizou as partes mais teóricas, conferindo a elas um toque de leveza (não que elas me incomodem, aliás, gosto particularmente delas, como já te disse). Porém, fico feliz meeesmo pelo retorno das micronarrativas. Elas são parte importante das minhas manhãs há alguns anos e fazem muita falta quando o blog está em hiato. Não para, não para, não para, não.

    😀

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    • paulopaniago 14/10/2014 / 13:34

      Voltaram e com força, porque tenho um estoque previsto de pelo menos dez para os próximos dias e o meu caderninho preto vem se enchendo de outras novidades. Não paro, não, haha.

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  2. patbilmend 14/10/2014 / 12:17

    Estou viciada em seus textos, sempre muito intrigantes, e adoro a direção quase ‘digressão’ que às vezes tomam.
    Como a Thaís, também gosto muito do formato micronarrativas. E também a associação com as belíssimas fotos.
    Você tem algum livro publicado?
    Ah, tenho aqui em casa uma pilha de seixos que herdei de uma vizinha que não os queria mais. Eles não estão aqui para marcar um caminho, vieram pra ficar e me inspirar. Eu os vejo de onde leio e escrevo.
    Um abraço

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    • paulopaniago 14/10/2014 / 13:37

      Obrigado pelo comentário, Patrícia. Pois é, gosto da ideia de deixar a história ficar um pouco à deriva. O livro que tenho publicado chama-se No compasso das letras (Terceiro Setor), e fala de literatura brasiliense. Os de ficção são material de gavetas (quatro romances, um quinto em andamento; contos; novelas; aforismos; e uma trilogia a respeito de literatura que ainda está incompleta).
      E sim, seixos são umas pedras muito fascinantes, você não acha? Que sejam brancos, isso para mim é o mais espetacular de tudo.
      Abraço.

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