Impactos inesperados

Foto | Petros Koublis
Foto | Petros Koublis

 

 

“Não se suspeita de que a morte, que marchava conosco em outro plano, numa treva impenetrável, escolheu precisamente este dia para entrar em cena”

Marcel Proust — O caminho de Guermantes

 

Se a gente soubesse tratar a morte não como o fenômeno central, ele disse, com uma pausa para lamber o picolé antes que um começo de derretimento lhe sujasse os dedos unidos em torno do palito, o fenômeno central da existência, prosseguiu, mas como um evento absolutamente irrelevante, o que de fato ela é mas não conseguimos perceber nem muito menos admitir, as coisas seriam bem diferentes. Ele sorriu, como se para emoldurar as palavras e em seguida morreu. Nós que ficamos vivos e não tínhamos experiência suficiente para agir de acordo com a sugestão daquele homem sábio não escondemos a surpresa e em seguida seguimos os velhos protocolos, dando-lhe enterro digno com direito à velório, lápide e às lamentações de sempre. Ninguém, por exemplo, lembrou ou teve presença de espírito de aproveitar o picolé que, abandonado, derreteu completamente.

 

6 comentários sobre “Impactos inesperados

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