Uns mergulhos

 

garotinha

 

 

Comecei a ler às quatro da tarde. Embora a frase não seja minha nem corresponda à hora exata em que comecei a leitura, nem por isso é menos verdadeira. Às oito ainda estava lendo. Era um livro grosso, os capítulos aparentemente intermináveis — eu passava as páginas não lidas para verificar. Entretanto, ao começar, esqueci-me completamente do tamanho e me vi envolvido nessa outra dimensão, na qual o tempo não conta mais, porque não importa: estava mergulhado no assunto, profundamente absorto pelos temas do sujeito, a família, os amigos, as crises que lhe abalavam a consciência, as ponderações feitas, as conclusões a que chegou. Sabia, por experiência própria, que nada era mais difícil do que escrever daquele jeito aparentemente fácil, com aquela fluência que me envolvia como um cobertor quando sinto frio. Lembrei-me de um sujeito que falava em ambiência, em atmosfera, para descrever esse clima (interior) que existe em volta de certas obras literárias cheias de determinada qualidade, de uma qualquer coisa que convence a muitos e muitos leitores que estão diante de um livro que consegue ser ao mesmo tempo aconchegante, conhecido, e estimulante e estranho. Quando ergui a cabeça e vi que teria de enfrentar novamente a realidade e suas demandas e apelos tão pedestres, quis abaixá-la em seguida, mas era tarde, algo havia se perdido e a porta se encontrava fechada.

 

6 comentários sobre “Uns mergulhos

    • paulopaniago 20/10/2014 / 15:09

      Existe um livro, Patrícia. Pode ser, por exemplo, Philip Roth (qualquer um, mas em especial O teatro de Sabbath), pode ser Jonathan Franzen, ou Saul Bellow. Dependendo do dia, pode ser Karl Ove Knausgård.

      Curtido por 1 pessoa

  1. Mirian Oliveira 21/10/2014 / 8:45

    também mergulhei em “o teatro de sabbath” e “herzog”, paulo. mas só me afoguei quando voltei à realidade. coisa chata esse negócio de porta fechada. ou um livro terminado e fechado, o que dá no mesmo.

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    • paulopaniago 21/10/2014 / 9:36

      Pois é, ainda bem que sempre têm novas portas (livros) por serem abertas. Descobri esta semana Mario Levrero, autor de Deixa comigo, gostei muito.

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      • Mirian Oliveira 21/10/2014 / 9:48

        já estou lendo as impressões de paloma vidal [revista cult] sobre “deixa comigo”. adoro suas dicas, paulo. valeu de novo.

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